venerdì 28 giugno 2019

17. Com-templo

Enquanto eu escrevo, a garotinha se lança no ar! É um pontinho rosa no balanço. É bonito de ver. Destaca o verde das folhagens ao fundo… penso na Mangueira. Rio sozinha. 

Estou num parque e a contemplo. Com-templo. A italianinha cor-de-rosa é meu templo. Um dos muitos que encontrei até agora.

Contemplar é verbo transitivo direto e, às vezes, pronominal: fixar o olhar em (alguém, algo ou si mesmo), com encantamento, com admiração. Observar atentamente; analisar.
Fui lá bisbilhotar o dicionário, porque o verbo - poverino! - já quase caiu em desuso. Não, o termo não! Todo mundo sabe o que é contemplar. É da ação que nos esquecemos.


Do latim contemplari, “observar, prestar atenção”, originalmente “marcar um espaço para observação”, como faziam certos adivinhos em Roma antiga. Forma-se por com-, intensificativo, mais templum.

Roma Antiga? Vim parar no berço das contemplações! E quase morro de amor com essas sincronicidades junguianas!
Tá, mas o que é um templo?

Templo (do latim templum, "local sagrado") é uma estrutura arquitetônica dedicada ao serviço religioso, como culto. O termo também pode ser usado em sentido figurado. Neste sentido, é o reflexo do mundo divino, a habitação de Deus sobre a Terra, o lugar da Presença Real.

Estou extasiada com a minha nova palavra favorita que mal sei começar o parágrafo. A minha bambina é a Presença Real do Divino sobre a Terra. E quem haverá de negar?

Sabe, nunca consegui ao certo ter uma religião. Mas não é por falta de divindade não… sempre foi por abundância. O meu divino nunca coube em nenhuma instituição. Eu juro que tentei. Fiquei lá esmagando o benedetto, cortando o pé de Deus para ele caber em algum dos inúmeros Re-ligare do Brasil (e da Europa, África, Índia, etc) para ver se assim eu me re-ligava mais fácil. Em vão. Ele/ Ela sempre foi por demais de grandioso e teimava em sair da moldura, espaçoso que é. E penso que a Antiga Roma possa inaugurar outra possibilidade para esse Divino…

Desculpem, ainda estou atônita com o terceiro parágrafo: “marcar um espaço para a observação”. 

Qualquer cidadão que tenha vindo diretamente da capital paulista para a Europa deve ter ficado perplexo com o ritmo das coisas por aqui. O serviço demora, nem sempre o garçom vem a hora que você quer… O almoço não é na frente da planilha; é apreciando a Piazza di Spagna. A saída com os amigos não fica para o fim-de-semana não. “Que tal na 3f depois do trabalho?” - que é às 18h; não às 23h - E, alla romana, faço uma pausa para respirar. Retomo o ritmo. Continuemos.

É que os italianos são mais… contemplativos. Tenho quase a ousadia de dizer que os europeus em geral o são. Não vou nem chegar na Ásia, porque é de meter vergonha em qualquer paulistano! Conheci um médico indiano essa semana que me transmitia tanta paz que eu fiquei constrangida com a minha própria ansiedade! O cara flutuava, eu hiperventilava. 

“Da dove viene?”
“Brasile. San Paolo”
“Ah, troppo grande San Paolo. Troppi stimoli.”*

Queridão, você não faz nem ideia da quantidade de estímulos… tá achando que caos é só vaca na rua?
Mas deixemos as vacas e a Índia… Voltemos ao oeste.

A Europa tem me ensinado a respirar. A colher as verduras na boa época, a saborear um gelato (correção: uns mil gelatos!) com atenção, a conhecer os moradores do prédio. A Itália me ensina a brotar e a morrer… Os italianos, diferentemente dos brasileiros, não expressam a religiosidade em centenas de cores e doutrinas (que é colorido e maravilhoso e eu amo!), mas aqui a riqueza é outra. 

Os romanos, em sua grande maioria católicos ou ateus (juro - por todos os deuses! - que só conheci romanos católicos e extra-céticos até agora) não se dão conta do quanto são vastas as suas divindades para mim. Gostaria que soubessem que têm ensinado uma brasileira - graduadíssima em cristianismo, hinduísmo, macumba e por aí vai - a respirar o divino do cotidiano. Meu Deus, que era gigante e complexo, tem ficado cada vez mais prosaico. Mais simples. Mais imediato.

Enquanto reviso o texto, a garotinha já foi embora… Preciso de um novo templo. Afortunadamente, nos últimos meses o sol não está com pressa nenhuma de se pôr… até ele sabe contemplar a Terra antes de dormir.

Terei um tramonto literário só para mim. E tantos deuses quanto quiser.


*“Ah, troppo grande San Paolo. Troppi stimoli.”: "São paulo é grande demais. Estímulos demais".





mercoledì 19 giugno 2019

16. Com Darwin no divã

identidade


substantivo feminino

1.qualidade do que é idêntico.
2.conjunto de características que distinguem uma pessoa ou uma coisa e por meio das quais é possível individualizá-la.

Isso é o que aparece na tela quando digitamos “identidade definição” no Google.

Idêntico.

Pois bem, refiz a pesquisa com “identidade etimologia”:

identidade

Origem
⊙ ETIM lat. identitas,ātis, do lat.cl. idem 'o mesmo'

Idêntico. O mesmo. 

E por aí vai, a pesquisa se amplifica: identidade visual, de gênero, cultural...

Impossível não se questionar sobre o que te distingue e te individualiza estando imersa no mar do estrangeirismo.

O Wikcionário disse que é porque eu não sou “o mesmo”;

O policial federal olhou a cor do meu passaporte (a carteira de identidade internacional);

A florista do bairro riu do acento que denunciou o meu sotaque que não era idêntico ao romano ;

Já os amigos italianos se atentaram ao fenótipo e me identificaram com cara de polaca;

O outro rebateu que eu poderia “muito bem ser italiana”. Um mesmo. Um como eles.

Caspita! O que me faz… eu?

Meu sangue é 50% português, 20% italiano, 20% espanhol e 10% polonês. Bom, pelo menos foi isso o que me contaram. Ninguém na minha família foi no Ratinho fazer DNA.

Fora isso, meus antepassados atravessaram oceanos, mudaram de nome e sobrenome, conheceram gente pra dedéu e podem ter transado com essa gente no porão do navio. Tô achando muito difícil essa porcentagem estar tão exata assim...

Para complicar ainda mais, nasci em São BeRnaRdo do Campo. No Brasil.

Amo mandioca, odeio carnaval. O feijão sai bom, mas a caipirinha é um desastre. O biquíni é carioca, o nariz é italiano.

O que é ser brasileiro?

Aqui fica todo mundo frustrado com a minha falta de melanina quando eu revelo o país de origem. Vai explicar pro gringo eurocentrista que o emblema do Brasil é a miscigenação e que a gente fez feira de ciência vestido de Tarantella (quem nunca?) para falar da imigração… Eles só queriam que eu fosse mais preta. Seria menos incômodo.

Pelo menos no samba eu não decepciono! Ficam todos mais tranquilos e acomodados aos seus estereótipos.

É isso que incomoda. A gente busca identidade. Não é só o europeu não. É da condição humana ser gregário, buscar se agrupar, pertencer… e ai de quem trair a ordem!

A União Europeia não quer ninguém ilegal. O couro do documento tem que ser vermelho, mesmo se 500 anos antes eles invadiram as nossas ocas. 

“Desculpe, cadê o visto? Você não é comunitário”. (Eles usam essa palavra para os cidadãos da UE). “Mercosul é na outra fila…”

A gente também não quer ninguém que atrapalhe a ordem. Seja o refugiado africano na Av. São João, seja o aluno de inclusão na sala de aula. O não-comunitário, o não-identitário incomoda.

Tudo bem que é gostosinho ter where to belong. A gente gosta de quem gosta das mesmas músicas da gente, dos ritos, crenças, do partido político da gente. É confortável, não nego.

Mas será que essa obsessão pelos símiles precisa ser tão implacável? É útil isso?

Darwin discorda. Fiquei encantada na semana passada! Estava lendo para palpitar a dissertação de mestrado¹ de uma querida amiga psicanalista sobre o conceito de “adaptação” nas escolas com crianças de até 3 anos. (Sim, adaptação...estou chafurdando nesse assunto por razões óbvias…)

Bom, o texto dela é tão profundo que eu nem ouso citar (ao invés de palpitar, eu aprendi!), mas vos trago porque fiquei sensibilizada com o paralelo traçado com a Evolução das Espécies de Darwin.

O pai da Teoria Evolucionista é um dos grandes mestres da ciência a falar de adaptação e minha colega psicóloga lança mão de seus conceitos para mostrar que, por mais que a evolução das espécies se dê pela perpetuação da genética (sempre a mesma) dos mais aptos ao meio; é justamente na desadaptação - na falha, nas mutações genéticas - que é possível forjar uma nova espécie não identitária e mais interessante de outro ponto de vista. 

Sacou aonde eu tô querendo chegar?

A identidade é esse vestígio passível de contorno e definição nessas adaptações e desadaptações que fazem a evolução. A identidade - pelo menos para mim - nunca está dada.

E a graça do negócio é essa! Tem horas que a gente se aliena infantil e confortavelmente na identificação dos símiles para posteriormente se desadaptar (fazer nossas mutações!) e seguir construindo novas identidades.

Eu nunca serei italiana. E a minha identidade brasileira reside aí: Só consigo escrever em português, meus gatos miam em português e agora aqui em casa só se fala português. 

Minha identidade está no Caetano cantando um baianês aberto no Spotify e no grito incontido com o gol da Marta ontem à noite (contra a Itália!hihihi)

Mas não me furtarei de fazer minhas mutações e permutas. A Ciência já me contou que é no remodelamento que a mágica acontece… seja ela qual for.

E meu amor me mostrou que é na com-posição que se constrói identidades. Ele vai no piano de Vivaldi. Eu vou na voz de Elis. Quem sabe não fazemos a nova bossa nova?

Queremos ter uns dez filhos: um em cada país. Um de cada jeito. Matteo Salvini não gosta. Mas Charles Darwin adora.

¹ Dissertação de mestrado ainda não foi defendida e publicada. Quando for a ocasião, citarei o nome da autora e título da dissertação para quem se interessar em aprofundar o tema. Aqui - se tratando de um blog informal - foi apenas extraída a minha releitura para embasar a crônica. O texto em questão é muitíssimo mais rico e teórico. Aguardem!


Darwin Political Cartoon from Pinterest




mercoledì 12 giugno 2019

15. A Vida na Hora

Hoje é um dia lindo… no instagram. É o dia dos Namorados, dia em que - no meu país natal - se celebra o amor. Os italianos ao meu redor não estão nem atinando para os valentinos, mas meu cuore brasiliano (e minhas redes sociais) me lembram que é dia de amar. Então gostaria de dedicar esse texto a todos que apostam e investem no amor. Sobretudo, gostaria de honrar aqueles que, como eu, foram e são corajosos (ou desequilibrados?) suficientes para amar à distância. Ou, ainda mais, a se mudar por amor.

O sujeito que larga a sua vida inteira - endereço, família, língua madre, sol, amigos, estabilidade, etc (a lista é infinita) - por um outro ser no mundo é... um maluco completo! Um histérico incurável! 

Quando penso que me despedi de avós no fim da vida, encaminhei quarenta pacientes em sofrimento e enfiei meus dois gatos (também em sofrimento) num avião para vir para um país que eu nem gosto tanto, eu tenho vontade de me internar. Ou de me automedicar. Ou mandar caçar o CRP da minha psicóloga… Talvez até dar uma bronca nos meus próprios pais. Quem permite a um ser humano tamanha imprudência?? Não importa que eu tenha 30 anos! Alguém teria que impedir esses atos levianos! Não?

Não. Ninguém impede. O amor tem um non so che cosa que enfeitiça as pessoas! Fica todo mundo doidão, achando tudo maravilhoso e apostável. Vira instagram.

As fotos de flores, jantares e promessas escondem os litígios, omitem os desencontros e travestem as insatisfações. 

Igualmente, a frase - pronunciada entre suspiros, talvez até inveja - “se mudou! Foi embora por amor” oculta toda a dureza da vida como ela é. 

Pensem comigo que o cidadão que “se muda por amor” é tão doido que ele topa pular etapas de um relacionamento que nenhuma criatura em sã consciência faria: O casal passa de um namoro virtual… para o casamento! Cinema de fim-de-semana? Não teve. Férias com a família neurótica? Not. A briga pela arrumação do quarto? Qual quarto? O do hotel? 

Dessa forma, o casalzinho recém-formado se encontra no vestibular da real life sem ter feito curso intensivo! É dirigir sem CFC! Ir para o palco sem ensaio! Competir sem treino! Puta sacanagem!

Mas como haveria de ser?
Alguém precisou se mudar. 
Morar separados? E quem paga o aluguel sozinho com o euro a 4,5?
E quem aguenta o desamparo da (in)adaptação junto à solidão?

Me faz pensar quase nos casamentos arranjados do passado. Ou os atualíssimos matrimônios entre os indianos, muçulmanos ou judeus. Um passo no escuro.

Para eles, uma Fé ferrenha na escolha divina, astrológica e dos genitores.
A nós, ocidentais, se restringe à Fé no amor. A aposta na escolha que, para nossa infelicidade, não foi papai que fez. Nem o do Céu e nem o da Terra. Nossa miséria neurótica não vai poder botar a culpa em ninguém. Nós escolhemos. Então vai lá pagar o preço da escolha…

É de uma coragem Humana! Mais que Divina! É o enfrentamento da vida-como-ela-é MAIS o catalisador da urgência e do não ensaio. É uma coisa absurda!

E as pessoas fazem. Nós fazemos. Eu fiz.

É uma prova de fogo que a foto do Coliseu esconde… mas que é muito mais bela e potente que o Coliseu. É um amor e um investimento colossal.

É uma construção muito mais minuciosa e atenta que os Arcos Romanos. São os nossos arcos e laços que, ao invés de se degradarem, prometem se assentar com o tempo.

É mais sagrado que a Capela Sistina, porque Michelangelo pode planejar… e nós rabiscamos de improviso.

É a coisa mais grandiosa que eu já fiz.

Obrigada aos meus pais, amigos e analista que não me internaram. Que abençoaram a união como um guru hindu e apostaram na nossa sorte. Mas, ainda mais, apostaram na nossa capacidade de restauração. 

Hoje não vai ter meu gringo bonito no Instagram. Vai ter a verdade ao mesmo tempo delicada e cortante de minha poetisa mais sensível e polaca (como meu sangue):

A vida na hora.

Cena sem ensaio.

Corpo sem medida.

Cabeça sem reflexão.

Não sei o papel que desempenho.

Só sei que é meu, impermutável.

De que trata a peça

devo adivinhar já em cena.

Despreparada para a honra de viver, mal posso manter o ritmo que a peça impõe.

Improviso embora me repugne a improvisação.

Tropeço a cada passo no desconhecimento das coisas.

Meu jeito de ser cheira a província.

Meus instintos são amadorismo.

O pavor do palco, me explicando, é tanto mais humilhante.

As circunstâncias atenuantes me parecem cruéis.

Não dá para retirar as palavras e os reflexos, inacabada a contagem das estrelas, o caráter como o casaco às pressas abotoado – eis os efeitos deploráveis desta urgência.

Se eu pudesse ao menos praticar uma quarta-feira antes

ou ao menos repetir uma quinta-feira outra vez!

Mas já se avizinha a sexta com um roteiro que não conheço.

Isso é justo – pergunto

(com a voz rouca

porque nem sequer me foi dado pigarrear nos bastidores).

É ilusório pensar que esta é só uma prova rápida

feita em acomodações provisórias. Não.

De pé em meio à cena vejo como é sólida.

Me impressiona a precisão de cada acessório.

O palco giratório já opera há muito tempo.

Acenderam-se até as mais longínquas nebulosas.

Ah, não tenho dúvida de que é uma estreia.

E o que quer que eu faça, vai se transformar para sempre naquilo que fiz. 


Extraído do livro Poemas, de Wislawa Szymborska, Companhia das Letras



Wislawa Szymborska, poetisa polonesa

mercoledì 29 maggio 2019

14. O Aedes e a coragem


Expatriado é foda. Se fosse só bom, não começava com “ex”...

É muito glamour comer mirtilo.;
Mega poético saber que meu rolê baixa renda é um cornetto ao pé do Coliseu;
Aprecio caminhadas noturnas sem risco de estupro;
E amo a qualidade de vida europeia. Amo.

Só que ser forasteiro tem lado B.
Fora-steiro não está por dentro. Fora-steiro é estranho. É FORA. É margem. É confim.
Com fim.

Fim da terra. Fim da linha. Limites, fronteiras, raia, divisa. 

O que te traz aqui? E o que te faz ficar?

Tenho amigos por toda a Europa e digo empiricamente que ela nos testa: O Velho Continente é um Deus brabo do tipo Velho Testamento: tentador, punitivo, castrador. Não vacila! Veremos se ele nos aceita ou nos bane para sempre do Paraíso...

Escolhi o pior país para equivaler meu diploma: estão querendo jogar meus 12 anos de estudos e 9 de prática no lixo, porque a lei soberana dos psicoterapeutas do Lazio acham que só na Bota se faz Psicologia… affanculo os saberes (que não é sinônimo de conhecimento) e a Psicanálise laica de Freud. Aliás, laicismo aqui tá difícil…

Vamos à lista de meus brasileiros corajosos espalhados e apanhando nesse mundão:

Minha amiga e colega de formação, especialista em neuro e hospitalar que mora na Áustria passou um sufoco para uma equivalência que a permitiu FINALMENTE ser… assistente de professora infantil! 
Oi? Vocês estão de sacanagem?
Nada contra a educação infantil! Aliás, estamos levantando bandeiras nesses tempos sombrios…. Mas vocês têm noção da qualificação dessa mulher para colocá-la como assistente?

Outra amiga no Reino Unido tomou um esculacho com tom pomposo e superior de um policial londrino por atrasar uma notificação de residência. Saiu chorando humilhada de lá…

Fui fotografada e fichada na imigração da Irlanda aos 18 anos por ser jovem, brasileira e viajar sozinha. Suspeita de prostituição ilegal. “Se você não sair daqui em um mês, nós vamos atrás de você e te mandamos de volta para o seu país!"

É o visto que não chega, a cidadania que não sai, o trabalho que não vem...

Apanhamos para pedir uma pomada de herpes na Alemanha. Apanhamos para entender qual o ônibus certo a tomar… 

Fincar-se na terra do outro é se obrigar a germinar em terra infecunda.
É repetir seu nome milhões de vezes. E um nome não é pouca coisa…
É competir com o nativo que - pode até ter um currículo menos interessante - mas, pelo menos o curso dele, o entrevistador sabe pronunciar…
É ter que provar para a Polícia Federal que seu amor é real e evidenciar que o casamento não é fachada…

Ser FORAsteiro é se bancar e se fazer valer DENTRO do ninho do outro. É de uma coragem absurda. Mas a gente dá conta.

Conversando sobre isso com minha melhor amiga (também expatriada) ela me citou a frase de seu namorado mineiro (e todo mineiro é adoravelmente engraçado! Então preparem-se!):

“Ingleses, vocês sabem da onde eu venho? No país de onde eu venho UM ÚNICO mosquito passa TRÊS DOENÇAS!”

Explodi de rir! 


É isso, cara Europa! Você acha que a ameaça nos detém? Que a dificuldade nos marginaliza? Oh dear, nós somos vacinados (literalmente). E se vier nos visitar, melhor se vacinar também...


O Aedes aegypti é a personificação da resiliência brasileira! A gente cria anticorpos. A gente se faz valer. Don’t mess with us.

Podem vir quentes que estamos fervendo.... 

E não é febre amarela! É de coragem!







sabato 11 maggio 2019

13. Lobas

Acabo de ver uma publicação no Instagram da Tati Bernardi: “É muita mãe pra pouco Freud” - ta aí uma verdade verdadeira. A Tatinha (gosto tanto dela que, para mim, somos íntimas!) devia estar pensando na mãe dela, mas tomo a liberdade de roubar a referência. Dá para teorizar sobre esse amor? Até o pai da psicanálise teve seus trancos e barrancos e cá estou eu ousando escrever sobre a maternagem. 

Aceito minha limitação acadêmica e me direciono apenas a ela: a minha mãe. Sobre ela tenho maestria. 

Moro na Itália. Antes disso, morei no Brasil. E antes ainda, morei em seu útero. Essa mulher virtuosa não me planejou, mas me amou desde o primeiro exame. Me quis menina mesmo acreditando que eu viria com pipi (talvez também por isso eu seja toda metida a fálica!). Me esperou com entusiasmo e um tanto de preocupações. Me encheu de amor, me forçou comida, cuidou com mãos de fada, gritou como uma louca… Me vestia como uma princesa, mas me fazia um cabelo horroroso de coqueiro. Me penteava com o carinho dos anjos, embora certa vez tenha cortado minha franja de modo tão torto que virei o Jim Carey em “Debi e Lóide”. Foi perfeitamente ambivalente como qualquer ser humano que se preze. Fez tudo o que pode por mim e meu irmão na juventude dos seus trinta anos… e como fez bem! A danada é ariana cor de carmim e sempre soube nos dar amor e limite na mesma intensidade de seu fogo materno. O abraço e a bronca vinham queimando num braseiro de afeto. Que bom, calor não nos faltou.

Às vezes - como qualquer ser humano que se preze - relata culpa. Mães são culpadas quase por definição. Vi isso na clínica, na Bíblia, nos parques, nos ventres… É como se o erro e a maternidade não pudessem caminhar lado a lado. Como se o poder divino de gerar vidas fosse inconciliável com a errância humana. Quem inventou isso?

Gosto da concepção francesa “Il n’y a pas de mère parfaite”*. Com essa simples frase, as mães parisienses vão consolando umas às outras e dizendo a si mesmas que está tudo bem falhar. Não sei quem escanquestou que parir anulava a nossa condição de seres castrados. Aliás, eu sei. Fomos nós neuroticamente.

A Deusa sabe o que faz. (No dia das mães, nada mais justo que reverenciar a faceta feminina da divindade, não?)

Pois vos digo mais: as Deusas topam os crimes! Quem não topamos somos nós. No Antigo Egito (e até hoje por todas as partes do mundo greco-romano) se honra Ísis, a maravilhosa Deusa da maternidade e de fertilidade. Amo! Ísis era considerada um exemplo de mãe e esposa, era amiga de todo mundo, protegia até os inimigos e ajudava a galera do sub-mundo. Em contrapartida, copulou com o próprio irmão e lhe deu um herdeiro para vingar a sua morte. Fala se não era uma fanfarrona? Acho fantástico. Decidi bordá-la para homenagear minha mãe e toda a humanidade inerente às mães imperfeitas...e ainda assim sublimes. Como Ísis.




Calm down! Isso não é uma apologia ao incesto! Continuo sendo psicanalista e considero muito desejável que nossa cultura continue obedecendo uma Lei (que, em nossa civilização, se apoia no Tabu do Incesto) e acho ótimo. Furar isso seria perversão e estaríamos fadados aos caos. O ponto é que pecado e vingança são aspectos essencialmente humanos e Ísis, ainda que divina, comporta toda a nossa transgressão sem perder a paz. Por que então nossas mães terráqueas deveriam perdê-la?

Caminhemos em direção ao ocidente. A fundação de Roma, segundo a lenda mitológica, tem como participantes os irmãos gêmeos Rômulo e Remo que, após terem sido abandonados no rio Tibre, foram salvos por uma loba que os amamentou, mantendo-os vivos. Há alguns registros que defendem que a supracitada loba foi, na história real, sua mãe adotiva humana, já que o termo loba (em latim lupa) também era utilizado em sentido pejorativo para as prostitutas da época. 



Ou seja, a mãe poderosíssima e co-responsável pela fundação do maior império de todos os tempos teria sido ao mesmo tempo: animal, humana, mãe e puta. E vocês aí com complexo de culpa! Preocupadinhas com perfeição...

Esse texto é para todas as mães com seus úteros divinos e mãos pecaminosas. Para toda a dualidade maravilhosamente humana que há em nós mulheres. E é sobretudo para a minha mãe...

Minha fada, morar longe de você é sentir saudade frequente dos nossos erros e acertos. É te amar por tudo que você foi, é e continua sendo. Obrigada pelo acolhimento do útero e obrigada mil vezes mais pela expulsão do nascimento. Sem teu ventre abençoado eu não teria adquirido a força para explorar o mundo. Il n’y a pas de mère parfaite. Mas tem você, que é perfeita… mesmo sendo ariana! 

Buona festa della mamma!

*Il n'y a pas de mère parfaite: Não existe mãe perfeita



martedì 7 maggio 2019

12. Informal is the new black

Tenho amigos ótimos. Ótimos é pouco. Temos o dom do divertimento minimalista. Apenas estar na presença deles já é um bálsamo, não precisamos de mais nada. E, ao escrever esse texto, sorrio e me emociono ao mesmo tempo; não vejo a hora de ir para o Brasil abraçar todos aqueles bocós. 

Pessoas queridas em SP é o que não falta, mas aqui estou falando particularmente do meu grupo de infância. Tem gente lá com quem já fiz até bodas de prata de amizade. A convivência e a intimidade são as coisas mais bonitas que existe, porque te faz relaxar perto de quem se ama. Com eles posso fazer tudo ou nada, posso recebê-los de pijama, posso praticar naturismo, possa lamber o rosto deles (é sério). O amor prevalece.

Veja só, a familiaridade é tanta que viajar com eles é tipo viajar com a família, mas sem a chatice da família! É uma win win situation! E é assim que a gente gosta: amizade informal. Vale ter uma fase grude, mas vale ficar meses sem se falar. Vale fazer homenagem de data festiva e vale igualmente esquecer o aniversário. Sem cobranças. Vale amar e vale mandar tomar no c… como é leve ter vocês! 

E é leve inclusive de calorias! Organizar um evento nunca foi para nós. Para que pensar em jantar? “Passa no posto e traz a cerveja, depois a gente racha”. Alguém leva o “Perfil”? Ou vamos de “Imagem e Ação”? A única vez que tentamos fazer guacamole, virou guacadura. “Vamos pedir pizza?”

Rolê baixa renda? Nós! Viagem barata? Nós! Cobrar amigo caloteiro? Nós! 

Coisa linda de fluir… Tudo flui. Único conflito da trip é a antiga guerra Toddy x Nescau… feia essa briga, mas em tempos de ódio buscamos ser democráticos. 

Todo esse mela-cueca fraternal para dizer que informal is the new black. Óbvio? Não para os italianos.

Estou um pouco chocada com as formalidades. Ainda que os romanos sejam puro amor, abraçadeiros (adoro!) e muitíssimo parecidos conosco, tem algo de uma formalidade ali que não me convence.

Para começar, o piacere no primeiro contato (mesmo entre jovens!!!) é um caloroso… aperto de mão! Nada de beijinho, abracinho… “vamos respeitar a lei do eu-não-te-conheço e pouparmos os nossos rostos”. Acho chato. E daí que você nunca viu a pessoa? Cumprimenta, pô! São só duas bochechas se tocando!

Segundo ponto é uma “etiqueta da amizade” na qual alguém paga a conta. UM ÚNICO alguém. O conceito - na teoria - é bacana: um dos amigos “oferece” (como eles dizem aqui) o café e paga a conta, de modo que vocês tenham uma “desculpa” para marcar outra vez e aí será você quem pagará o café. Não sei a razão, mas é assim que funciona. Talvez os italianos sejam fracos de matemática, talvez preguiçosos, talvez extremamente gentis e seja eu a cricri. A ideia é fofinha, mas na prática eu ainda prefiro mil vezes o esquema de rachar. 
Quem nesse mundo atarefado vai lembrar quem pagou na última vez? 
Fora que fica uma tensãozinha para ver quem vai oferecer:

- “No, offro io”
- “Ma che! offro io!”

Gente, chega de oferta! A vida já tem muita ansiedade para vocês inventarem mais uma!

Outro dia, a amiga do Andrea pagou meu ônibus! O ônibus! Caríssima, se alguém deveria pagar meu transporte é o Estado, não você. Mas grazie mille, gentilissima. É muito cortesia, acho uma graça! Mas não sei lidar! Será que agora eu tenho que chamá-la para um rolê de metrô e fazê-la passar na catraca? Estaremos quites?

O terceiro aspecto é o mais grave de todos e com o qual tenho uma relação ambivalente: la cena. O célebre jantar na casa dos amigos. Para começar, se alguém te chamou para um jantar, seria desejável que você levasse algo. Flores, a sobremesa, um vinho… sei lá! Não se apresente de mãos abanando que é gaffe. Pequeno parêntese: Eu consegui fazer gaffe até de mãos cheias: levei um vinho sul-africano para um jantar nos meus sogros. Sim, sou ingênua e desatenta ao bairrismo italiano. Não consigo descrever as sobrancelhas erguidas de meu sogro quando viu um rinoceronte no rótulo da bebida. Certamente ele esperaria qualquer região da Itália, mas jamais um produto de outro continente. Fica a dica!

Voltando ao jantar dos amici, devo dizer que são eventos profissionais dignos de Master Chef. No último deles em que fui, havia algumas opções de antipasti com vinho branco enquanto o primo piatto estava ainda no forno. Tentei não me matar de comer queijo e azeitona enquanto esperava.
Eis o primo: pasta cacio e pepe. Uma massa tradicionalmente romana saborosíssima.
Quando todos terminamos, a elegantérrima anfitriã nos surpreendeu com o secondo piatto: peixe espada com rúcula e um molhinho bom sei-lá-do-quê. Um deleite.
E para fechar com glamour, il dessert: tacinhas individuais de chessecake artesanal com mascarpone veramente italiano. Achei chiquérrimo. 

Mais chiquérrimo ainda eram todos aqueles nativos opinando sobre os pratos, tecendo elogios e críticas, todos com seus paladares historicamente desenvolvidos por suas mamma’s. Eu e meu requinte brasilieiro só conseguíamos achar tudo gostoso e pensar na sofisticação daquele “rolê da galera”. Lembrei do meu último jantar com a galera de SP no carnaval: batemos um sanduba do Z Deli em casa, enquanto a maioria de meus amigos se esbofeteavam por uma tequila com um verme. Sim, um verme. Era uma tequila mexicana daquelas que têm um “verme da sorte” e quem conseguir (grande feito!) comê-lo terá bem-aventurança sem limites. Meus amigos esquartejaram o animal tamanha era a competição, até os vegetarianos (hipócritas!) se renderam…

Fiquei mentalmente comparando o cheesecake ao verme. O jogo de talheres aos guardanapos sujos de hambúrguer. O aperto de mão aos abraços de urso.

Amo me sentir num restaurante 5 estrelas Michelin quando vou simplesmente ver amigos por aqui. Sou boa de garfo e me regozijo. Mas hoje - mentira, não é só hoje - a saudade está grande e eu daria tudo por um verme. Tudo por vocês que me leem aí do outro lado do oceano provavelmente comendo um açaí com os dentes sujos de roxo. E tudo bem estar sujo. Porque amigos são família. E que se danem as formalidades.




mercoledì 1 maggio 2019

11. Na dúvida, vai-a pé

Sou um gênio. Tomei duas multas em menos de um mês. Isso significará uns 150 euros a menos e um rombo em meu orçamento; provavelmente passarei o mês à base de pão e vinho, como faziam os italianos nos tempos de guerra. Eu também estou em guerra… contra a ATAC (Agenzia del trasporto autoferrotranviario del Comune di Roma). 

A regra é simples: para que simplificar se podemos complicar?

Digo que os romanos não sabem dirigir; meu namorado defende outro ponto de vista: “Nós somos criativos, é só isso. Somos artistas do trânsito!”. Aqui metade das vagas são proibidas e a outra metade é “inventada”. Há os lugares proibidos que resultam em multa e os lugares - também proibidos - porém para os quais os guardinhas de trânsito fecham os olhos... e aqui é possível criar! Vagas ilegítimas, mas com a concessão de serem telas em branco nas quais o artista (vulgo cidadão-corrupto-sem-noção) pode deixar emergir a fantasia e pintar sua obra. Vale tudo! Estacionar no sentido oposto, na diagonal, em cima da calçada, de ponta-cabeça… o que importa é o fiscal curtir a sua arte e te absolver. O “jeitinho brasileiro” fica timido perto da ousadia dessa gente .

O duro é que para entender essa (i)lógica demanda tempo! Eles nascem sabendo; nós, expatriados brasileiros sofredores, temos que comer muito arroz e feijão (ou talvez lasanha?) para chegar lá. Temerosa, verifiquei em um site sobre mobilidade em cidades grandes italianas. Fala se não parece pegadinha:

Ausência de faixa no asfalto: teoricamente livre e gratuita, mas depende se “é lugar autorizado e que não invada a circulação”, então o site te recomenda: melhor não (oi?);

Faixa branca no asfalto: pode estacionar de boa (vai achar uma dessa);

Faixa amarela: faixa de difícil interpretação. Disponível para residentes, trabalhadores, inválidos e pessoas que possuam a permissão da Comune. Entretanto, não há nenhuma placa horizontal especificando o que é compreendido por “pessoas autorizadas”. (Como faço para saber se me enquadro em residente? Trabalhadora? Inválida?!);

Faixa azul: faixa permitida mas sujeita a pagamento. Seria o nosso Parquímetro. No caso deles “Parcômetro” (tô falando que parece piada).

Estou quase desenvolvendo uma fobia viária e estacionamentária. Outro dia tomei bronca do marito porque parei rapidinho na faixa amarela (comigo dentro do carro, caso precisasse manobrar...):

“Caramba, amor! Na amarela não. Quando você não achar vaga, para em fila dupla no meio da rua…daí é tranquilo”.

Oi? Não posso parar na frente de um muro porque tem cor de ovo no chão mas posso parar em fila dupla? Não posso parar aqui na minha guia não rebaixada e vocês param em cima da calçada? Não posso ficar aqui dentro do carro te esperando enquanto tem três caras sem capacete na mesma moto em Napoli? 

Eu desisto.

Há o ditado errôneo que diz “Quem tem boca vai a Roma”. Não, não vai. O ditado é inverídico duplamente. Primeiramente, porque foi deturpado por uma confusão sonora e, segundo, porque quem tem boca vai a qualquer lugar, menos a Roma! Para ir a Roma, camarada, precisa ter boca, apólice do carro, seguro de vida e muita cara de pau (e, no meu caso, dinheiro… para pagar essas autuações todas).

Já o ditado legítimo “Quem tem boca vaia Roma” já demonstra mais coerência. É justamente isso que as pessoas faziam em relação aos “deslizes” dos imperadores e as formas de governo que definhavam o império: vaiavam Roma. Vaiar é testemunho de repreensão, corretivo. A gente vaia para dizer que não concorda, que não está legal.

Mi dispiace, cara Roma. Preciso te vaiar. Preciso vaiar as buzinas e xingamentos que tomei. Vaiar as faixas imprecisas. Vaiar a falta de civilidade e segurança. Amo você. Juro. Outro dia falei bem dos seus morangos. Mas hoje estou chateada, você vacilou.

Vaiem Roma comigo, mas não deixem de vir. Venham com suas bocas e corações e seguros-saúde. Roma é maravilhosa. Mas, na dúvida, vai-a pé.





martedì 30 aprile 2019

10. Insistenza e Amore

Ho una nuova teoria stereotipata: Gli italiani insistono. Sì sì, cari miei. Qui le cose vanno spiegate bene (a volte all’esaurimento). 

Da quando sono a Roma mi ritrovo ripetutamente guardando la stessa e usuale scena: persone che parlano concomitantemente e che alzano gradualmente la voce motivati da un unico intento, cioè farsi ascoltare, farsi capire:

“Aspetta, fammi spiegare!”
“Forse non sono stato chiaro, intendevo…”
“Fammi concludere, per favore…”

La parte più bella (e che mi fa ridere silenziosamente mentre loro si uccidono) è che si mettono tutti ad argomentare così ardentemente (ad un volume altissimo!) che diventa impossibile comprendere, in modo in cui quello che si osserva è un sacco di monologhi di sordi. È una scena meravigliosa e assolutamente da vedere prima di morire. 

Alla fine, perché dovremmo dire le cose solo una volta si la natura ci ha dato le corde vocale e, per conseguenza, la possibilità di ripetere due mila volte la stessa frase? Perché risparmiare quando l'abbondanza è così invitante? Così sembra la logica italiana.

L’insistenza ha anche il suo aspetto alimentare. Avete già provato (dovrei dire osato?) a dire “no” a un’offerta di cibo fatta da un cittadino italiano? L’esperienza ha completamente cambiato la mia concezione di insistenza. Qui in Italia, dire “no” al cibo sembra una sorta di errore peccaminoso, per il quale si dovrebbe sentire colpa oppure vergognarsi. “Ma perchè non vuoi un secondo/terzo/ottavo!! pezzo di lasagna? Non ti piacciono le lasagne?” (aggiungere un viso triste e sconvolto a questo enunciato). Nella mente della vecchietta che vi offre la pasta, se vi piacciono le lasagne, allora le dovrete mangiare fino al supplizio (altrimenti non erano buone). 

Credo che l’insistenza stia talmente nella coltura che anche il linguaggio sia stato contaminato. Mi spiego (perchè anch’io inizio a diventare così spiegatrice!): per gli italiani, il pleonasmo - anche se sbagliato - è socialmente accettato. “Salire su”, “scendere giù”, “uscire fuori” sono possibilità perfettamente normali. Essendo brasiliana, questa cosa di “aggiungere un termine assolutamente inutile che era già contenuto nella frase” (mia definizione bizzarra di pleonasmo) mi è sempre sembrata assurda! Siamo pratici, pelo amor de Deus! Ogni tanto facevo la rompiscatole chiedendo al mio fidanzato “e perché invece non usciamo dentro?” quando mi proponeva di fare una passeggiata e prendere l’area usando l’espressione pleonastica che mi produceva dei brividi di orrore grammaticale e, allo stesso tempo, un sorriso genuino.

Sì, il pleonasmo fa sorridere! La ripetizione fa sorridere perchè, malgrado l’irritazione dell’insistenza, la fonte di questo eccesso è la passione, è l’amore. 

Anche la pubblicità ha capito lo fascino di un modesto “a me mi piace”. “A me mi piace”, anche se sbagliatissimo, perdura nel vocabulario di tanti e tanti italiani perché rivela l’anima del cuore italiano.

Mi appoggio su Wikipedia per difendere la mia teoria: “Il pleonasmo (dal greco πλεονασμóς: pleonasmós, "esagerazione") è un’espressione per cui si ha un'aggiunta di parole o elementi grammaticali non necessari, ma ritenuti erroneamente esplicativi di un'espressione già compiuta dal punto di vista informativo e sintattico. A questo accorgimento, il cui effetto è una ridondanza, si ricorre al fine di dare alla frase una maggiore intensità, forza, chiarezza o efficacia.

Ecco! La ridondanza non è invano. Insieme a lei, vengono l’intensità, la forza, tutta la passionalità italiana! Come trasmettere quel mondo di sentimenti provati senza gonfiare la sintassi? Come farlo? L' amore è enfatico, la passione è ripetitiva. E così sarà anche l’oralità italiana.

Per me, è fondamentale conoscere le regole; é un rispetto alla propria lingua. D’altra parte, forse sia ancora più fondamentale saper lasciarle umilmente accanto nel nome dell’amore. A me piace l’Italia. Ma a me, mi piace ancora di più la gente.
Esageriamo! Amiamo!



martedì 23 aprile 2019

9. Ué, meus textos não se traduzem

Andei frustrada. É que meus textos não se traduzem… A cada revisão da versão italiana, eu suspirava profundo com o coração desiludido: meu marido não entendia minhas piadas, queria mudar minhas frases porque não funcionavam em italiano… Certa vez, sugeriu uma tradução de “arrasou” para “hai fatto bene”. Tá me tirando? Sem contar a parte cultural: Quem é Guimarães Rosa? Bethânia? Vestibular?


“Vestibular” não é alguém. E talvez nem eu seja... imersa nesse cazzo de interlocutores que não me compreendem. O que é um ser humano sem linguagem?



Sei o que o caro leitor está pensando. Meus textos não se traduzem porque eu sou uma porcaria de tradutora. È vero. Tem também esse aspecto. Não domino completamente a língua como é exigido aos bons tradutores - aliás, toda a minha admiração por essa profissão que fomenta a democracia da informação - porque eu não estou fomentando nada. Apenas tretinhas noturnas no meu casamento. Real oficial. Tivemos uma discussão colossal porque Andrea insistia que “saudade” e “mi manchi” eram a mesma coisa (podem linchá-lo, eu deixo). Não, não linchem. Na verdade, não é teimosia e nacionalismo (aqui em casa não entra ninguém que aplauda Mussolini). Há de fato um furo linguístico-existencial. Dá para explicar o que é saudade para alguém que não tenha minimamente suas raízes entrelaçadas ao lirismo lusitano?

Estava quase aceitando a minha incapacidade de transladação idiomática e terceirizando a tarefa de tradução dos textos quando lembrei de uma cena engraçada. Meses atrás rolou uma discussão em um grupo de whatsapp da minha mãe. A sogra dela mandou uma foto toda fofinha sob o sol de Pisa com a seguinte legenda: Quarando no sol da Toscana.

É partida a discussão no chat: quarar? Que verbo é esse? 

Teve gente que achou que a senhorinha tinha inventado; gente que só identificou por causa das roupas do Alceu Valença no varal, teve gente tipo caviar: nunca viu nem comeu, só ouviu falar. E teve a resposta TOP ONE no meu ranking que transcrevo de memória:

“Nossa! Minha vó deixava as roupas quarando na grama, daí a aranha passava em cima e a gente pegava uns cobreiro que só curava com benzedeira.”

Vos convido a apresentar a frase acima para qualquer gringo que domine a língua portuguesa. Boa sorte, gringo.

O gringo, por mais foda que seja em português, não vai sacar. Não vai sentir coceira psicológica ao pensar no cobreiro, nem vai imediatamente projetar em seu cérebro a imagem de uma senhora benzedeira. Simplesmente não dá. E que bom! Porque justamente aí reside toda a beleza da nossa brasilidade!

Vai explicar o que é um cafuné, um cafofo, um xodó. Vai convidar o europeu para jogar futevôlei. Depois diz que ele arrasou e leva num restaurante que é um desbunde. Come tapioca com farofa e termina a noite chamando de lindeza que é para conquistar.

Até a bicharada entra em crise. O cachorro aqui faz “bau”. Irmãos de terras tupiniquins, vocês já ouviram algum cão brasileiro emitir o som “bau”??

Fora as interjeições! Toda vez que eu digo “ixi” meu amor acha que sou uma balão com escape. Já quis inclusive procurar “eita” no dicionário e acha positivamente informal chamar Deus de “mano do Céu”.

Conclusão da ópera: eu não posso traduzir. Se traduzir é coletivizar a informação, não traduzir é um ato de amor. Recuso-me a trair minha madrelingua com essas traduções capengas. A saudade - que não é mancare - exige que eu traga comigo as vísceras do meu lar. Fernando Pessoa já dizia que a língua portuguesa era sua pátria. Eu compartilho de cada vocábulo do mestre luso. Sinto muito, agora só vai ter crônica na língua de Camões.

Por que?

Uai, diacho, porque meus textos não se traduzem.


*Para compensar a falta de traduções (e continuar praticando escrita em italiano) escreverei textos inéditos na língua de Dante para o público que lê em italiano.




lunedì 15 aprile 2019

8. Como assim você não sabe?

Hoje faz exatamente duas semanas que cheguei a Roma. E faz igualmente duas semanas que não escrevo. Não escrevi porque não consegui… Não foi falta de tempo não, acho balela quem joga a culpa no coitado do Cronos. Eu não escrevi porque não sabia o que dizer. Quis escrever sobre tanta coisa: sobre a multa de 100 euros que consegui tomar em menos de 10 dias; sobre meu marido que quase foi expulso pela Guarda do Vaticano (morram de curiosidade, essa vai ficar para um próximo texto); sobre o laço materno e a quantidade de lágrimas que verti para me despedir da minha mãe… sobre tanto! Mas em meio a tanta novidade e intensidade… eu simplesmente não soube. E não escrevi.


Mas, vejam bem, não foi assim tão tranquilo como descrito no parágrafo anterior. Minha decisão de greve literária não veio sem exigências e imposições superegóicas. A maior delas e que me acompanha desde a infância foi e é a maldita a seguir: “Como assim você não sabe?”

Fiz ballet clássico dos 8 aos 25 anos e me lembro de minha professora - tão maravilhosa quanto severa - perguntar a mim e a minhas colegas frequentemente a tenebrosa frase: “Como assim você ainda não sabe?” 

Acontece que o mundo do ballet é duro para caçamba. Perdeu o ensaio? Se vira. Não decorou a coreografia? Já tinha que saber. Está com o pé sangrando? Sorri.

A urgência pelo ideal é tanta que perde-se o respeito ao ritmo e aos processos. A recomendação é implícita: se possível, salte todas as etapas e chegue logo à perfeição; de preferência, sem correções e sem delongas. Aos 35 você já está velha e seu joelho consumido pela condromalacia. Então corra!

Houve ainda o ensino médio com o sistema Anglo coroado por seu slogan nada inclusivo “aula dada, aula estudada”. Não entendeu? Que pena, já passamos para a próxima lição. Orgulho para a escola era os alunos passarem na Fuvest em Medicina no primeiro ano como treineiros. Pressa, pressa, corre! Quanto antes, melhor! “Como assim você ainda não sabe o que vai prestar?”

Percorrendo esse avesso biográfico, não me parece assim tão imprevisível que eu tenha sido acometida por um quadro grave de ansiedade aos vinte anos, findando em um consultório psiquiátrico e afundada em Rivotril.

Hoje, com a perspectiva abençoada de 10 anos de futuro (e desintoxicada do ansiolítico!), gostaria muito de perguntar a meus mestres com síndrome-de-coelho-branco-da-Alice: Caros, para que tanta pressa? 

O pivete treineiro vai passar em Medicina à toa, minha gente! Ele não vai poder cursar a USP aos 14 anos. E o coleguinha dele vai fazer Engenharia só porque a família acha bacana “passar direto” sem cursinho… o cara talvez odeie Exatas. Então eu repito: Para que a pressa? Por que a antecipação?


Ano passado, tomei uma bronca bem-humorada do meu companheiro porque cheguei em casa em dezembro com uma caixinha de morangos. Andrea gargalhando e acostumado com meu excesso de urbanismo me interroga: Ma che c’entra? Non è la stagione delle fragole!* Amore mio, no Brasil tem morango o ano inteiro! Se a Mãe Natureza não faz, a gente forja! Espertos né? Na verdade, nem tanto. Assim como os professores ansiosos do Anglo, forçar a natureza a produzir no inverno um fruto primaveril pode ser nocivo. Para nós mesmos.

Compreendi com os italianos que a Natureza nos dá uma aula constante sobre cadência, compasso, ciclos: ela nos dá laranjas antes do inverno para nos proteger dos resfriados nos enchendo de vitamina C. E nos dá as frutas secas no inverno para fazer uma reserva de gordura para atravessarmos o frio (fica fácil deduzir que comer toda essa gordura no verão vai nos fazer mal). Isso sem contar que, aqui na Itália, os produtos fora da época custam o dobro! Ninguém quer isso. 

O camponês italiano tá dando um baile nos meus professores de dança. E no Diretor do Anglo. E em mim!

E aí, impregnada de hortas europeias, eu finalmente consigo responder para o meu superego que se o morango (em dezembro) ainda não sabe o que vai ser quando crescer (em maio), talvez seja tudo bem eu não saber sobre o que escrever na minha primeira semana de mudança.

Talvez seja tudo bem eu ainda não saber onde vou trabalhar aqui na Europa. 
Está tudo bem você ainda não saber se quer ter filhos, se faz uma especialização ou se viaja para o Zimbabwe. Se está no seu ritmo, está tudo bem.

E lendo esta última frase me vem um pouco de vergonha, porque esse texto ficou com um tom meio auto-ajuda, então perdoem-me! Tá breguinha, mas eu precisei disso! Mudar de país precipita “não-saberes” e eu não necessito de uma dose extra de ansiedade. E escrever acolhe. Pois bem, se alguém me questionar sobre meus conhecimentos e pretensões no Velho Mundo, responderei um delicioso “não, não sei!”. Será um feliz e apropriado “não sei, ainda não!”.

Ainda não sei onde pode estacionar em Roma (nem eles, diga-se de passagem). Ainda não sei conjugar o verbo “soccombere”. Ainda não sei quando o Ministério vai decidir equivaler meu diploma. Ainda não sei os frutos da estação. Não sei. Me deixem! Sou um morango em dezembro e quero Respirar. Não quero Rivotril. Quero Respirar. Não quero Rivotril. Quero o Rio Tibre. Não quero Refletir. Quero rimar, rir, relinchar, rodopiar. Não quero Rivotril. Quero Roma e seus rabiscos, ritos e reflexos.


*Ma che c’entra? Non è la stagione delle fragole!: O que tem a ver? Não é a estação dos morangos!






mercoledì 3 aprile 2019

7. Quando o próprio amor vacila

"Eu sei que atrás deste universo de aparências,
das diferenças todas,
a esperança é preservada.

Nas xícaras sujas de ontem
o café de cada manhã é servido.
Mas existe uma palavra que não suporto ouvir,
e dela não me conformo.

Eu acredito em tudo,
mas eu quero você agora.

Eu te amo pelas tuas faltas,
pelo teu corpo marcado,
pelas tuas cicatrizes,
pelas tuas loucuras todas, minha vida.

Eu amo as tuas mãos,
mesmo que por causa delas
eu não saiba o que fazer das minhas.

Amo teu jogo triste.

As tuas roupas sujas
é aqui em casa que eu lavo.

Eu amo a tua alegria.

Mesmo fora de si,
eu te amo pela tua essência.
Até pelo que você poderia ter sido,
se a maré das circunstâncias
não tivesse te banhado
nas águas do equívoco.

Eu te amo nas horas infernais
e na vida sem tempo, quando,
sozinha, bordo mais uma toalha
de fim de semana.

Eu te amo pelas crianças e futuras rugas.

Eu te amo pelas tuas ilusões perdidas
e pelos teus sonhos inúteis.

Amo teu sistema de vida e morte.

Eu te amo pelo que se repete
e que nunca é igual.

Eu te amo pelas tuas entradas,
saídas e bandeiras.

Eu te amo desde os teus pés
até o que te escapa.

Eu te amo de alma para alma.
E mais que as palavras,
ainda que seja através delas
que eu me defenda,
quando digo que te amo
mais que o silêncio dos momentos difíceis,
quando o próprio amor
vacila"


Esse poema é recitado por Maria Bethânia (não sei se é ela a autora) e obviamente me foi apresentado por aquela minha amiga visceral da crônica 4. Que dádiva ter pessoas assim ao redor!

Ao se despedir de mim, minha querida amiga me olhou nos olhos e desejou coragem, investimento, sensatez... coroou seu discurso pedindo que eu lesse em voz alta esse poema. Quase como um ritual sagrado de mulheres do mesmo clã. Uma iniciação ao matrimônio. Ela é a lacaniana mais junguiana que eu conheço! Só faltou abençoar meu útero... mas jamais faria isso! Falta muito banho de assento de camomila pra chegar no meu nível de bicho-grilice. Não precisa benzer meus ovários, amiga, seu poema já me abençoou da cabeça aos pés. Caiu como um bálsamo. Obrigada dal cuore.

Um dia antes, tinha ido instalar a webcam para a minha avó (sim, morram de amor!). Ela anda bastante emotiva e me contou que gostaria de deixar essa vida junto ao meu avô, pois "eles vivem um pelo outro" (sic) e não haveria sentido continuar vivendo sem esperá-lo para o jantar. São mais de 60 anos de casados e eles ainda caminham de mãos dadas. São décadas de convivência e ele não sai de casa sem beijá-la. São anos e mais anos sob o mesmo teto e ele continua a paquerá-la em italiano. Liga o dia inteiro para ela porque sente saudade e isso a apoquenta. Ele é teimoso até os ossos e isso a apoquenta. Eles se apoquentam. 
Mas se um vai dormir sem dar o beijo de boa noite, o outro faz bico; o bico mostra insatisfação e re-clama o beijo. 

Maria e Flavio Vertematte - com seu sobrenome italiano e cuja passionalidade portamos também eu e meu companheiro - seguem me ensinando o que é o casamento.
Os conselhos de minha avó foram sendo bordados junto aos panos de prato que ela me fez. Bethânia declama o que minha nonna patenteia. 

Não dá para largar tudo e cruzar o oceano se não for para amar também nos equívocos, nas rugas e cicatrizes. Não dá para topar uma vida a dois com tudo o que ela comporta se não for para topar apoquentar e ser apoquentado.  Não vale se casar se não for para amar até as horas infernais. Não vale escolher dividir a vida com alguém se não vamos escolher suportar o silêncio dos momentos difíceis... E ainda assim amar. Amar... amar é escolha. 

Hoje, terça-feira, cheguei a Roma. E cheguei também ao Amor. Que eu seja capaz de amar como eles... até quando o próprio amor vacila.




Flavio e Maria Vertematte, vulgo meus avós lindos