sabato 30 novembre 2019

23. Tanti auguri.

Semana passada o sol entrou em sagitário e começaram os parabéns dos mais festeiros do zodíaco. Saquei o celular, liguei para a amiga, mandei textão, mandei audião, quase fiz post com foto nossa no instagram (só não fiz porque tô velha, até uns 28 eu ainda fazia aquelas breguices deliciosas…) mas a farra foi total! Até na distância:


“Tudo de bom! Felicidade, saúde, paz, dinheiro, trabalho, amor, sexo, alegria, muitas comemorações (...) blá blá blá”. Cantei parabéns em quatro línguas diferentes e desejei tantas coisas que, lá pelas tantas, estava na dúvida se ela ainda estava na linha. Ela estava, ufa! Agradeceu de todo coração, desejou tudo em dobro pra mim (o aniversário era dela!), rimos, abraçamos a tela, puro amor!

Meu marido achou esquisitíssimo. Assim como todas as nações acham esquisitíssima a duração do “Parabéns pra você” em português. Já reparou?

Os gringos ficam naquela repetição xexelenta de “happy birthday to you, dear friend” que deve durar no máximo 10 tediosos segundos, enquanto os brazucas vão noite afora com as horas, os piques e os rá-tim-buns!

Tem versão censurada pornô também.

Tem “o azar é dela que fica mais velha”.

E tem “com quem será”. 

E tem versão gritando “hey” a cada fim de frase.

E, para quem achar pouco, a gente ainda pede para subir na mesa, fazer discurso, cortar o bolo, fazer pedido e entregar o primeiro pedaço para alguém especial. 

(Tô com dó dos brasileiros que são introversos)

O fato é que a gente capricha nos parabéns! É comemoração para ninguém botar defeito!

Mesmo os mais tímidos se esforçam para mandar um textinho caprichado, às vezes arriscam uma mensagem de voz... Poxa vida, é importante! Você deu mais uma volta ao redor do sol e, em tempos tão difíceis como os nossos, ninguém merece começar mais um ano sem votos de amor e felicidade de seus entes queridos. Certo? Più o meno.

Se você não tivesse recebido a bem-aventurança aniversarianística de ser parido em terras brasileiras, você não estaria tão certo disso. Vou te contar um segredo: os italianos não sabem fazer votos. hihihi

Aliás, eles sabem! Sabem até demais, sabem ao pé da letra.

Ao comemorar seu aniversário na Itália, você receberá apenas um “Tanti auguri” e ponto. Isso mesmo: ponto. Final ou de exclamação. Dificilmente vai vir algo depois disso.

“Tanti auguri” são os “parabéns” all’italiana que, literalmente, seria algo como “tantos votos”. A incoerência é que eles não fazem os votos! Pensou que coisa doida?!
Você fala: “Tantos votos para você” e não faz o raio dos votos! Não faz sentido algum! Que votos?

Compreendi isso a duras penas. Em setembro aniversaria o homem que escolhi para chamar de meu e eu tenho duas difíceis missões nessa época:

1. Comprar presente para um virginiano (que, em geral, são os mais “cri cri” das constelações)

2. Fazer meus votos a um italiano que não está acostumado com delongas nessa hora

Esse ano, quando deu meia-noite, pausei o filme, abracei, beijei, peguei o presente e disse meia dúzia de palavras fofinhas (já sabendo que ele ia achar muito bizarro o meu discurso). Acho que ele gostou, mas ficou sorrindo meio sem reação; claramente mais interessado em abrir o presente e em devorar um possível bolo que não teve (desculpa, amor, não sei fazer doces) do que na minha tagarelice.

Andrea é romântico até os ossos, então não era falta de sensibilidade. É só um costume chocho deles… (ou uma tradição efusiva nossa?)

Perguntei para uma amiga paulistana que morou em Roma e ela confirmou! A maluca ficou tão intrigada com a apatia do então namorado italiano que foi verificar no facebook dele como os italianos se parabenizavam! (Tem alguém mais louca que eu!) E qual não foi sua surpresa - e alívio - quando ela leu diversos… muitos…muitos mesmo... tipo TODAS as publicações assim:

Tanti auguri.

Tinha também: 
Tanti auguri!

E os mais calorosos:
Tanti auguri! Bacione.

Nada de votos de felicidade, nada de desejar dinheiro e saúde pro amiguinho! 

É, minha gente brasileira, precisamos ensinar o mundo a fazer votos. 
Talvez eles já tenham demais.
Talvez a escassez brasileira nos tenha feito desejantes.
Ou talvez a gente só seja mais fofo.
Mais doidos?
Mais foliões?

Não sei. Só sei que eu gosto assim mais fanfarrão! Fanfarrões como os sagitarianos! 

Inclusive aproveito para deixar os meus parabéns para todos os aniversariantes do mês com muita paz, saúde, amor no coração, dinheiro no bolso, muitos anos de vida…rá tim bum! Com quem será que você vai casar? 

Sei não. Mas se quiser textão, não casa com italiano!



Imagem: shutterstock.com




domenica 27 ottobre 2019

22. Meu casamento arranjado

Que prática cruel essa iniciativa de unir dois seres sem seu consentimento. Pior ainda é encarar a obrigação de que, em pleno século XXI, um amor te faça renunciar ao outro. Desejei a bigamia. Mas era crime, tanto na Itália quanto no Brasil. Aí trouxe minhas tralhas e meus gatos como dote e me entreguei… a ela.


Pois é, meus amigos. Eu, que sempre fora acostumada com um jovem e masculino país, me vi conceder a uma senhorinha decrépita e em desuso. Uma terra anciã e feminina!

Eu, que sempre estivera circundada da virilidade de André, Bernardo, Caetano e Paulo (todos santos, ok, mas deixem-me fantasiar que eram varonis!), me vi desembarcar nos braços de Roma. A velha charmosa - mas nem por isso menos caduca - da Europa. Aí se consumou meu casamento arranjado.

Ao contrário dos casamentos por amor, as núpcias da união forçada são violentas, do tipo goela abaixo. São duras, frias e sem romantismo. Uma verdade nua e crua do tipo: “Agora somos nós duas. Descubra-me e aceite-me. E se possível, faça o melhor que puder de mim”. Estava selada a união.

No casamento arranjado a realidade te assola sem meios disfarces. O cônjuge já vai, logo de partida, se mostrando como é e fica a nosso encargo a destruição dos ideais infantis e esperançosos pré-nupciais.

Quis minha esposa mais limpa. Ela era suja e fedia desde o primeiro dia. Reclamações não mudaram seus hábitos.

Eu a quis mais gentil e custei a compreender que os anos de Imperatriz a tinham feito vigorosa e dominadora. Minha senhora ainda se achava kaputt mundi e gentileza nem tinha boa cadência em língua italiana. 

Eu a quis mais organizada. Desejei tanto que a parceria me ajudasse a lidar com minha desordem. Mas Italia foi, desde a cerimônia, um caos avassalador que confundia ainda mais a pouca disciplina que eu havia herdado de Brasil. 

Eu a quis mais humilde. É que eu vinha de uma história de complexo de inferioridade: com Brasil, aprendemos sempre que o jardim do vizinho é mais verde, que no estrangeiro tudo é mais legal e que fora as coisas funcionam. Meu povo anda olhando pro chão. Roma anda olhando pra cima, para os monumentos que conquistou e construiu ao longo do tempo e, com seu olhar colossal, tende a diminuir o outro. Eu tinha vergonha de ter uma mulher arrogante. O que minha família e meus amigos iriam achar quando viessem me visitar?

Queria que ela fumasse menos.

Queria que não fosse tão machista…

Queria tantas coisas...


Acontece que a união estava feita. E, em nome dela, residia um amor ainda maior: dessa vez um homem. Maravilhoso. 

Um outro André - não o santo da cidade de origem - mas um homônimo e valioso presente que ganhei de Senhora Italia com as bodas. E por esse amor eu topava aceitar a vecchia bacucca*. O amor viria com o tempo, mas pelo menos aceitar já seria meia jornada andada. Se não conseguisse, va bene. Estávamos dispostos a assinar o divórcio com a soberana e buscar outra união que nos permitisse estar em paz. Mas o divórcio - como acredito - deve ser sempre l’ultima strada.

Tenho me inspirado na cultura hindu que, diversamente de nós filhos da jovem América, aposta tanto nas pequenas construções diárias. Após o aval dos astros e a benção dos deuses falta só dizer “bom trabalho!”. Trabalhar é lavoro. É lavorare, elaborare. Como em uma Psicanálise, a cada um a tarefa de descobrir como salvará a si mesmo (não me recordo as exatas palavras de Freud), mas a ideia é essa aí. Então bora trabalhar:

Já sou capaz de ter uma compreensão mais justa de minha companheira. Entendi que, muitas vezes, sua agressividade não é hostil, é simplesmente o dinamismo que a História lhe ensinou a ter. E posso recebê-la assim.

Continuo rejeitando os cigarros em todos os cantos, mas já tenho contado para todos os filhos da Signora Italia como é lá no nosso jovem Brasil e aí - ironicamente - a nacionalista orgulhosa viro eu.

Ainda não aprendi a amar o inverno - filha dos trópicos que sou -, mas já sou capaz de apreciar o clima mediterrâneo e quando vejo fotos de amigos encapotados em Londres, Viena ou Montreal, lembro que estou só de jaquetinha e que a véia é até que quentinha.

Sua experiência e velhice têm me transmitido segurança e amo andar por suas ruas à noite. Posso até estar sozinha! Lembro que Brasil não me deixava fazer isso e agradeço a algum deus romano de mármore enquanto passeio por suas praças.

Até em sua bagunça tenho encontrado contorno e escrever isso me parece um milagre. Dos impedimentos burocráticos nasce um novo e inesperado trabalho. Do pisotear nasce o vinho. Da lama nasce a lótus.

A aceitação parece ser mesmo um dos indispensáveis do matrimônio. Ao acolher o incômodo, inicia-se a digestão do mal-estar abrindo espaço para novas deglutições. E nesse espaço criado a partir do assentimento pode brotar uma infinidade de contingências favoráveis.

Outro dia me peguei admirando as maritacas; as mesmas baixinhas histéricas de quem sempre me queixei. E elas me pareceram mais verdes.
Tão verdes quanto o pesto que meu marido prepara. Sinto o perfume caminhar da cozinha para o corredor… e acabo de atinar que não falei das habilidade gastronômicas de minha nova união!

Quantas mais coisas será que esqueci de botar reparo?

* Vecchia bacucca: velha caduca

Tatuagem em alfabeto tibetano "Da lama nasce a flor-de-lótus" por @mcapocci

domenica 22 settembre 2019

21. Saber morrer

(No mês nacional de prevenção ao suicídio, ofereço a reflexão de minhas mortes possíveis. Nossas mortes constantes e superáveis a favor da vida!)


Meu último post tem mais de um mês, meu blog entrou em coma. Acaba de acordar e, aos poucos, retomamos as funções vitais. É preciso saber morrer. 

Os Titãs que me perdoem. Pode ser muito útil e maneiro aprender que a rosa com espinho pode te arranhar ou desenvolver a capacidade de remover a pedra no caminho... Escolher entre o bem e o mal. Saber viver. Entretanto, sinto quase intuitivamente que essas tendem a ser competências adquiridas mais fácil e precocemente. Viver é inato. Ao nascer, vive-se. É inerente à condição de ser-aí-no-mundo.

Mas o morrer… ah, o morrer. 

“Perdi” uma prima querida nesse período de coma do blog. Digo “perdi” pois não acredito em perdas humanas. Gosto de pensar em uma loira cacheada nadando e sorrindo à beça nos mares do Céu. É a cara dela. Quase ouço a risada…. e meu coração experimenta sensações indescritíveis de joia e pesar.

A morte nos traz isso. Ano passado, morreu um de meus amigos mais amados. Foi uma experiência extra-ordinária, inefável. Indizível. Na ocasião, uma amiga minha, ao me consolar, conseguiu dizer algo (pouco, mas algo) em meio a esse indizível todo: me desejou força e fé; e que eu aproveitasse a experiência, pois a morte nos trazia fenômenos únicos e incomparáveis. São efeitos que nada em Vida consegue oferecer. A morte porta milagres inéditos.

Graças aos deuses há lugares especialíssimos - dentro e fora de mim - para cada um dos amores que enterrei. Permito que descansem e renasçam como a Vida exigir.

E junto a eles enterro um pouco de mim. Também eu morri esse ano.

Mudar-se é extinguir-se. É deixar se esvair a existência antiga. É desconstruir a casa, desatar alguns laços, deixar ir pessoas, findar trabalhos. É morrer em mil e uma maneiras.

Deixei o Brasil no primeiro dia de abril. O outono - senhor sazonal proclamador das quedas - começava a dar as caras. Obrigava-me ao desapego dos cabelos, das peles e dos móveis. Em cada abraço de despedida ficava um pouco de minhas células, serpente mutante de epidermes que somos impelidos a ser.

Abandonei o hemisfério sul, mas o outono teimou em me acompanhar internamente. Ceifando tudo o que era folha seca, esse sacerdote da morte aniquilava expectativas ilusórias, caprichos infantis, apegos mesquinhos. Tive que deixá-lo exterminar as minhas vontades impossíveis, meus ideais neuróticos de cidade perfeita, minhas projeções (inocentes) de vida adulta, minhas promessas adolescentes de vida a dois.

Senhor Outono levou tão a sério a história do extermínio que me tirou 6 quilos, me roubou tapiocas e abacates, me escondeu minha própria língua! Um louco varrido varredor de tudo o que seca. Tome cuidado! Mas receba as bençãos…

Depois do aniquilamento vem o alívio e a limpeza das lentes. O milagre da visão sem a miopia pueril e antiga. Vem o amor real, o trabalho verídico, o casamento sem disfarces. O ideal é substituído pelo possível.

Amanhã, no meu país de origem, começa a primavera. Tenho apostado nessa Rinascita.

E, se aqui no hemisfério norte, o outono se obstinar a me seguir para uma “dobradinha anual” do declínio, va bene. Sono pronta.


Meu útero morre e renasce todo mês.

Meu couro descama.

Os budistas choram quando nasce uma criança e se rejubilam quando alguém se vai naturalmente.


Quintana já sabe que o importante é saber morrer… e continuar vivendo.






sabato 17 agosto 2019

20. Sobre distâncias

Roma localiza-se em uma posição geograficamente privilegiada; é uma cidade cosmopolita que tem toda a versatilidade da natureza a “meia horinha”: praia, campo, lago e o que você quiser imaginar. Apenas a neve poderia ser considerada um pouco mais inacessível. Ainda assim, em um pouco mais de uma hora os romanos têm acesso aos flocos mais poéticos do meio ambiente. Uma hora.

A maioria dos paulistanos, em apenas uma horinha, não chegam nem no trabalho. Em uma hora, os italianos vão e voltam.



Durante seis anos de faculdade, gastei três horas diárias em locomoção. Fosse privada ou publicamente, lá estava eu enlouquecendo de tédio e ansiedade em cima do Minhocão. Ônibus Perdizes, Metrô Linha Vermelha, Trem até o Brás. Bilhete Único no bolso e fé no coração: 1h30 para ir, 1h30 para voltar. Com sorte. De carro a situação não mudava e, para piorar, não dava para estudar. Se eu reclamava? Óbvio, aquela lamentaçãozinha típica rotineira paulistana, mas com a submissa resignação de que nada iria mudar. Afinal, todo mundo passa por isso... e Paula Toller - que é carioca, mas também sabe dos paranauê - me complementaria: “por que não eu?”

O Brasil tem 8.516.000 Km²; aqui a galera não tem medo da distância. Faz bate-volta para praia com sorriso largo, vale o esforço. 
Lembro-me da primeira vez que meu gringo veio me visitar no Brasil. Toda orgulhosa (paulista sente orgulho de Ubatuba), anunciei que iria apresentá-lo ao litoral norte de SP ou “paraíso na Terra”, como preferir. Tudo isso pelo simples preço de aproximadamente 5 horas de carro. Estava um transitinho mas não era feriado, então tudo estava sob controle. Em menos de seis horas conseguiríamos chegar até Paraty (que já é no Rio, mas o orgulho continua). Meu comunicado foi feito com entusiasmo, de modo que eu não conseguia compreender os olhos arregalados de desespero de meu futuro cônjuge:

“Cinque ore??? Ma sei scema?”*

Em seis horas ele vai de Roma até a Suíça, então ele devia mesmo estar me achando uma maluca completa. “Eu fiquei onze horas num avião para essa doente mental me aprisionar em um carro por mais seis horas?”. 
Felizmente, o amor triunfou. Ubatuba estava linda, como sempre.

O ponto fundamental é que o espanto de Andrea sempre me produz reflexões. Seus olhos perplexos me denunciam uma realidade a ser avaliada (lamentada? repensada?). Talvez eu não fosse desequilibrada por me estressar com o trânsito até a PUC… talvez nenhum ser humano fosse programado para suportar isso. Só que a dinâmica preestabelecida da classe média (e das outras também…) nos convenceu que sim.
Infatti, li recentemente uma pesquisa que afirmava que um dos fatores mais importantes para manter a saúde mental nas grandes metrópoles era trabalhar perto de casa. Meu companheiro assina tão embaixo que ele trabalha em casa. Beato lui.*

Sei sei. Isso não se aplica à realidade da maior parte dos brasileiros e não pretendo resolver a questão com essa crônica despretensiosa (embora eu recomende fortemente que, se você tem a mínima condição de diminuir os quilômetros, faça-o!), mas o meu convite é que a inspiração romana nos desafie a encurtar as distâncias do prazer.

A beleza bem que pode residir logo ao lado. Conheça seu bairro. Compre do pequeno, dos amigos artesãos. Acaricie os cachorros de rua. Conserte você mesmo. Se o restaurante é longe, faz o jantar romântico em casa mesmo. Plante uma árvore no seu lar, para não faltar Oxóssi quando não der para ir ao Ibira. Se Campos do Jordão virou hippie-chic mas o seu bolso não, leva o chocolate para derreter na casa dos brothers. Não precisa ir sempre na manicure, reúna as primas em casa. More perto de quem você ama. 

Sou hipócrita, não moro perto de todos que eu amo. Foi a parte que Roma me tirou da "meia horinha" de acesso. Nevrose incurável querer ter tudo... Mas o fim do ano com os amados já está na programação e será zero europeu. Adivinha para onde vamos? Sim sim, a galera escolheu Parati. Para mim. Para nós. Andrea já está se coçando e provavelmente baixando toda a discografia do Queen. Mas estamos felizes à beça. Paulista sabe bem, há amor também nas distâncias.


* Cinque ore? Ma sei scema?: Cinco horas? Você é louca?
* Beato lui: Sorte dele. Abençoado é ele.



Abril de 2018, Ubatuba

venerdì 26 luglio 2019

19. Sobre ritmos

Andante, vivace, adagio, allegro, moderato, largo… Na teoria musical, o tempo de uma composição é seu andamento ou velocidade e estes são descritos mundialmente… na língua italiana! Por aí já dá para sacar que os italianos entendem de ritmo, certo? Bem, talvez do ritmo deles.


Tenho fobia xenorrítmica, acabei de descobrir e de inventar essa palavra. 


Tem gente que tem intolerância a laticínio, a glúten... mês passado conheci um italiano com intolerância à frutose! Pelo jeito, intolerância no mundo é o que não falta… Por que eu haveria de ficar de fora? Não é sem algum constrangimento que o reconheço...

Meu mal é sofrer de uma intolerância tempistica. É gravíssimo e muito mais difícil de tratar e de evitar o inimigo. Analise comigo. Talvez você também padeça da mesma enfermidade:

Tenho horror ao tempo que não seja meu. Odeio atraso, tenho aflição de gente cantando e atravessando o tempo da música, repúdio de quem guarda algo que eu ainda ia usar. 

Me espera, poxa! 
ou
Corre! Vem comigo!

Mas não sai do meu tempo, pelo amor de Kronos!

Que angústia!

O sintoma é todinho meu, reconheço com o rosto ruborizado e coberto pela tela do notebook. Sempre fui a doida ansiosa e desrespeitosa com a pulsação alheia, sempre fui aquela mãe neurótica que quer que o filho arrume o quarto mas tem que ser na minha hora! Forço (ao menos tento forçar) o mundo “descompassado” (na minha vaidosa opinião) a funcionar na cadência determinada pela minha caprichosa vontade. Sou de verdade a mãe chata clichezona que faz o filho estudar, mas não pode esperar o seriado acabar. Tem que ser agora! Porque eu quero. 

Você também sofre disso? É fóbico xenorrítmico? Avesso aos ritmos do outro? Sim? Então eu te advirto: Preserve-se! Não venha para Roma!

Apesar da loucura ser minha (talvez nossa), Roma é a Rainha Perversa e descompassada que pode catalisar o pior da sua obsessão! 

Roma vai te dizer que o ônibus chega às 11h10… não se engane, ele dificilmente chegará antes das 11h20.

Ela promete que a equivalência do diploma demora só 3 meses e depois sai do armário do Sérgio Malandro dizendo “Pegadinha! Virou 2 anos!”

Ela garante que a primavera chega em março e morre de gargalhar enquanto lança geadas frias e do mal em pleno maio!

A safada te cobra 100 euros pela coleta do lixo e depois não passa… Ou melhor, passa quando der na telha. “Enquanto eu me arrumo, fique aí morando no esgoto” - grita e ri gostosamente enquanto conta as notas pagas pelo imposto.

É uma filha de um p@#$%! Só porque é bonita e gostosa, ela acha que pode fazer essas coisas com a gente! Andei zangadíssima!

Tão zangada com as cadências tortas de minha nova cidade que me fez atrasar o ritmo dos textos que faço justamente para Ela! Tem cabimento?

Amigos ponderados me dirão para eu aproveitar para aprender, controlar minha ansiedade, bla bla bla. Eu juro que estou tentando. Parei de encher os pacová do Ministério da Saúde (pelo diploma), da assessora (pela cidadania) e do meu companheiro (lhe implorando para estender as roupas no exato e preciso segundo de meu desejo).  Não faço mais. Tenho respirado e dito a mim mesma (como um mantra de proteção): “Não ser no meu tempo não significa não ser em absoluto”. Existe. Apenas em outro compasso.

E acabo de me lembrar de uma amiga que esteve ansiosa pois gostaria de engravidar e o marido relutava com o típico “ainda não”, “eu quero mais tarde”. Minha amada colega - tão histérica quanto eu - ouvia apenas o “não agora” e suprimia completamente o “eu quero” de seu parceiro. Acho uma história inspiradora por me ensinar a ouvir além da pressa e dos caprichos. Tem um sim um pouco mais adiante. Prossiga observando a areia que desliza na ampulheta.

Roma me zoa e quero acreditar que é para diminuir a minha teimosia. Estou tentando ser obediente e dançar sua louca Tarantella com tempos que eu definitivamente não entendo.

Parte de mim quer aprender logo a lição e os passos para que eu possa em breve voltar a valsar ao som do Danúbio Azul de Strauss. Austríaco. Pontual. Regular.

Quem sabe Kronos, após a experiência do Caos, me conceda morar na Suíça, especificamente dentro de um relógio, deleitando-me com o tic tac periódico que massageia a minha loucura. Por enquanto permaneço… balançando loucamente na desordem temporal mezzo adagio, mezzo vivace da Via del Corso.




domenica 7 luglio 2019

18. Humus goela abaixo

“Os romanos lançavam mão de vários vocábulos para designar a terra ou o solo: tellus, terra, humus, solum. O primeiro chegou até nós apenas por via erudita, através do adjetivo telúrico, enquanto o terceiro deu origem a húmus (com a variante humo), De humus provém o adjetivo humĭlis, que designava, em latim, tudo o que estivesse perto do solo ou, por extensão de sentido, tudo o que tivesse pouca altura. Servia para qualificar pessoas, animais, plantas e qualquer objeto. (...)

Já em latim clássico apresentava humilis vários sentidos figurados («de baixa condição, obscuro», «que tem sentimentos baixos», «abatido», «desanimado», «pouco importante, fraco»), mas só com os autores cristãos é que assumiu também o significado de «humilde por virtude», passando a designar igualmente aquele que, de forma mais ou menos manifesta, reconhece as suas limitações.”*

Não me assombra que sejam justamente os romanos a nos rebaixarem à terra - humus - para que reconheçamos os nossos entraves. Apanhei em três meses o que não havia feito em três décadas. Talvez você se reconheça: paulista, branca, privilegiada, classe média-alta, colégio particular, mensalidade cara de ballet, Cel Lep (também uma bica), empregada doméstica em casa. Tudo balizado para nutrir, para suprir, para repor, para agregar. Não me queixo. Anzi, agradeço todas as nossas noites a Deus, a todos os Orixás e à minha família pela bênção das oportunidades, da fartura, do conforto.

Mimada eu não diria… minha mãe sempre foi braba pra danar e meu pai disciplinador. E tenho um irmão que me abraçava e me dava socos na mesma medida. Me foi ensinado esperar, valorizar, doar, agradecer. Sou profundamente grata.

Mas caspita! A fartura estava lá. Sou privilegiada. E talvez vocês - ou pelo menos a maioria dos meus leitores - também sejam. Somos privilegiados. E o privilégio ensina pouco.

Fui pro Google:

privilégio

⊙ ETIM lat. privilegĭum,ĭi 'lei excepcional concernente a um particular ou a poucas pessoas; privilégio, favor, graça'

Ecco! O privilégio concerne a um particular, ao singular e incomum. O EXTRAaordinário! Ser privilegiado na sociedade nos faz sentir especiais. Diferentões. É uma ego trip de dar vergonha. E eu caí nessa! Tô com vergonha… mas tudo bem, muita gente cai. É a história cliché de não conseguir trocar o “Por que isso aconteceu comigo?” 

por

“Por que não comigo?”


Não sou especial. Nem você.

A Olimpíada de língua portuguesa me enganou! Me deu medalha e me chamou de especial. O lugar de solista na coreografia também… que tirano! Me senti a única a desempenhar aquele papel. O Curriculum nem se fala: a grana investida por meus amados genitores deu frutos de modo que trabalho - no Brasil - nunca me faltasse.

No Brasil.

Acontece que sair da sua terra - humus - e se alojar no solo do outro te aproxima ainda mais do chão. O teu lugar privilegiado ao sol não está mais garantido… no máximo um aquecedor xexelento no inverno se você puder pagar (com euro a 4,3. Boa sorte).

No estrangeiro, nossas características distintas e favorecidas se perdem na multidão dos imigrantes. Uma multidão de iguais. Desencana de ser diferentão. Não está afiançado que, nesta outra terra, os seus atributos notáveis e brilhantes de outrora perdurem. Se você vier para a Itália, piorou! Ô povo nacionalista! Aqui o legal é o “prodotto 100% italiano”, “il vino della Toscana”, “il latte del paese”. O “diferentão” deles são eles mesmos! Vai entender…

No meio de toda essa lamúria (e peço desculpas pelo abatimento literário), existe uma luz de bem-aventurança. A ventura - agora possível! - de enxergar o próprio buraco. A lei romana, personificada nos inúmeros reveses do cotidiano, me contando dia após dia… que eu sou ordinária. Que eu sou uma dos muitos na multidão. Speciale un cazzo. Eu sou corriqueira, habitual, até mesmo trivial! Como é difícil reconhecer. Mas como há ganhos!

Expatriar-se é rolar na lama do vizinho... porque na sua própria não se via bem a sujeira. Começo a entender por que não te amo, Roma. E talvez isso me ajude a te amar.

O orgulho e a vaidade são as maiores pragas humanas. Sempre acreditei. Mas nunca havia me sentido tão pertencente a essa calamidade.

Se quiser se aproximar do humus, venha para Roma. Ela te lembrará que da terra viemos e para ela voltaremos. Sem privilégios, tampouco honra ao mérito. No lugar da fartura, a bagatela. A testa no chão e a alma um pouquinho - mesmo que seja bem pouquinho - mais próxima ao céu.




venerdì 28 giugno 2019

17. Com-templo

Enquanto eu escrevo, a garotinha se lança no ar! É um pontinho rosa no balanço. É bonito de ver. Destaca o verde das folhagens ao fundo… penso na Mangueira. Rio sozinha. 

Estou num parque e a contemplo. Com-templo. A italianinha cor-de-rosa é meu templo. Um dos muitos que encontrei até agora.

Contemplar é verbo transitivo direto e, às vezes, pronominal: fixar o olhar em (alguém, algo ou si mesmo), com encantamento, com admiração. Observar atentamente; analisar.
Fui lá bisbilhotar o dicionário, porque o verbo - poverino! - já quase caiu em desuso. Não, o termo não! Todo mundo sabe o que é contemplar. É da ação que nos esquecemos.


Do latim contemplari, “observar, prestar atenção”, originalmente “marcar um espaço para observação”, como faziam certos adivinhos em Roma antiga. Forma-se por com-, intensificativo, mais templum.

Roma Antiga? Vim parar no berço das contemplações! E quase morro de amor com essas sincronicidades junguianas!
Tá, mas o que é um templo?

Templo (do latim templum, "local sagrado") é uma estrutura arquitetônica dedicada ao serviço religioso, como culto. O termo também pode ser usado em sentido figurado. Neste sentido, é o reflexo do mundo divino, a habitação de Deus sobre a Terra, o lugar da Presença Real.

Estou extasiada com a minha nova palavra favorita que mal sei começar o parágrafo. A minha bambina é a Presença Real do Divino sobre a Terra. E quem haverá de negar?

Sabe, nunca consegui ao certo ter uma religião. Mas não é por falta de divindade não… sempre foi por abundância. O meu divino nunca coube em nenhuma instituição. Eu juro que tentei. Fiquei lá esmagando o benedetto, cortando o pé de Deus para ele caber em algum dos inúmeros Re-ligare do Brasil (e da Europa, África, Índia, etc) para ver se assim eu me re-ligava mais fácil. Em vão. Ele/ Ela sempre foi por demais de grandioso e teimava em sair da moldura, espaçoso que é. E penso que a Antiga Roma possa inaugurar outra possibilidade para esse Divino…

Desculpem, ainda estou atônita com o terceiro parágrafo: “marcar um espaço para a observação”. 

Qualquer cidadão que tenha vindo diretamente da capital paulista para a Europa deve ter ficado perplexo com o ritmo das coisas por aqui. O serviço demora, nem sempre o garçom vem a hora que você quer… O almoço não é na frente da planilha; é apreciando a Piazza di Spagna. A saída com os amigos não fica para o fim-de-semana não. “Que tal na 3f depois do trabalho?” - que é às 18h; não às 23h - E, alla romana, faço uma pausa para respirar. Retomo o ritmo. Continuemos.

É que os italianos são mais… contemplativos. Tenho quase a ousadia de dizer que os europeus em geral o são. Não vou nem chegar na Ásia, porque é de meter vergonha em qualquer paulistano! Conheci um médico indiano essa semana que me transmitia tanta paz que eu fiquei constrangida com a minha própria ansiedade! O cara flutuava, eu hiperventilava. 

“Da dove viene?”
“Brasile. San Paolo”
“Ah, troppo grande San Paolo. Troppi stimoli.”*

Queridão, você não faz nem ideia da quantidade de estímulos… tá achando que caos é só vaca na rua?
Mas deixemos as vacas e a Índia… Voltemos ao oeste.

A Europa tem me ensinado a respirar. A colher as verduras na boa época, a saborear um gelato (correção: uns mil gelatos!) com atenção, a conhecer os moradores do prédio. A Itália me ensina a brotar e a morrer… Os italianos, diferentemente dos brasileiros, não expressam a religiosidade em centenas de cores e doutrinas (que é colorido e maravilhoso e eu amo!), mas aqui a riqueza é outra. 

Os romanos, em sua grande maioria católicos ou ateus (juro - por todos os deuses! - que só conheci romanos católicos e extra-céticos até agora) não se dão conta do quanto são vastas as suas divindades para mim. Gostaria que soubessem que têm ensinado uma brasileira - graduadíssima em cristianismo, hinduísmo, macumba e por aí vai - a respirar o divino do cotidiano. Meu Deus, que era gigante e complexo, tem ficado cada vez mais prosaico. Mais simples. Mais imediato.

Enquanto reviso o texto, a garotinha já foi embora… Preciso de um novo templo. Afortunadamente, nos últimos meses o sol não está com pressa nenhuma de se pôr… até ele sabe contemplar a Terra antes de dormir.

Terei um tramonto literário só para mim. E tantos deuses quanto quiser.


*“Ah, troppo grande San Paolo. Troppi stimoli.”: "São paulo é grande demais. Estímulos demais".





mercoledì 19 giugno 2019

16. Com Darwin no divã

identidade


substantivo feminino

1.qualidade do que é idêntico.
2.conjunto de características que distinguem uma pessoa ou uma coisa e por meio das quais é possível individualizá-la.

Isso é o que aparece na tela quando digitamos “identidade definição” no Google.

Idêntico.

Pois bem, refiz a pesquisa com “identidade etimologia”:

identidade

Origem
⊙ ETIM lat. identitas,ātis, do lat.cl. idem 'o mesmo'

Idêntico. O mesmo. 

E por aí vai, a pesquisa se amplifica: identidade visual, de gênero, cultural...

Impossível não se questionar sobre o que te distingue e te individualiza estando imersa no mar do estrangeirismo.

O Wikcionário disse que é porque eu não sou “o mesmo”;

O policial federal olhou a cor do meu passaporte (a carteira de identidade internacional);

A florista do bairro riu do acento que denunciou o meu sotaque que não era idêntico ao romano ;

Já os amigos italianos se atentaram ao fenótipo e me identificaram com cara de polaca;

O outro rebateu que eu poderia “muito bem ser italiana”. Um mesmo. Um como eles.

Caspita! O que me faz… eu?

Meu sangue é 50% português, 20% italiano, 20% espanhol e 10% polonês. Bom, pelo menos foi isso o que me contaram. Ninguém na minha família foi no Ratinho fazer DNA.

Fora isso, meus antepassados atravessaram oceanos, mudaram de nome e sobrenome, conheceram gente pra dedéu e podem ter transado com essa gente no porão do navio. Tô achando muito difícil essa porcentagem estar tão exata assim...

Para complicar ainda mais, nasci em São BeRnaRdo do Campo. No Brasil.

Amo mandioca, odeio carnaval. O feijão sai bom, mas a caipirinha é um desastre. O biquíni é carioca, o nariz é italiano.

O que é ser brasileiro?

Aqui fica todo mundo frustrado com a minha falta de melanina quando eu revelo o país de origem. Vai explicar pro gringo eurocentrista que o emblema do Brasil é a miscigenação e que a gente fez feira de ciência vestido de Tarantella (quem nunca?) para falar da imigração… Eles só queriam que eu fosse mais preta. Seria menos incômodo.

Pelo menos no samba eu não decepciono! Ficam todos mais tranquilos e acomodados aos seus estereótipos.

É isso que incomoda. A gente busca identidade. Não é só o europeu não. É da condição humana ser gregário, buscar se agrupar, pertencer… e ai de quem trair a ordem!

A União Europeia não quer ninguém ilegal. O couro do documento tem que ser vermelho, mesmo se 500 anos antes eles invadiram as nossas ocas. 

“Desculpe, cadê o visto? Você não é comunitário”. (Eles usam essa palavra para os cidadãos da UE). “Mercosul é na outra fila…”

A gente também não quer ninguém que atrapalhe a ordem. Seja o refugiado africano na Av. São João, seja o aluno de inclusão na sala de aula. O não-comunitário, o não-identitário incomoda.

Tudo bem que é gostosinho ter where to belong. A gente gosta de quem gosta das mesmas músicas da gente, dos ritos, crenças, do partido político da gente. É confortável, não nego.

Mas será que essa obsessão pelos símiles precisa ser tão implacável? É útil isso?

Darwin discorda. Fiquei encantada na semana passada! Estava lendo para palpitar a dissertação de mestrado¹ de uma querida amiga psicanalista sobre o conceito de “adaptação” nas escolas com crianças de até 3 anos. (Sim, adaptação...estou chafurdando nesse assunto por razões óbvias…)

Bom, o texto dela é tão profundo que eu nem ouso citar (ao invés de palpitar, eu aprendi!), mas vos trago porque fiquei sensibilizada com o paralelo traçado com a Evolução das Espécies de Darwin.

O pai da Teoria Evolucionista é um dos grandes mestres da ciência a falar de adaptação e minha colega psicóloga lança mão de seus conceitos para mostrar que, por mais que a evolução das espécies se dê pela perpetuação da genética (sempre a mesma) dos mais aptos ao meio; é justamente na desadaptação - na falha, nas mutações genéticas - que é possível forjar uma nova espécie não identitária e mais interessante de outro ponto de vista. 

Sacou aonde eu tô querendo chegar?

A identidade é esse vestígio passível de contorno e definição nessas adaptações e desadaptações que fazem a evolução. A identidade - pelo menos para mim - nunca está dada.

E a graça do negócio é essa! Tem horas que a gente se aliena infantil e confortavelmente na identificação dos símiles para posteriormente se desadaptar (fazer nossas mutações!) e seguir construindo novas identidades.

Eu nunca serei italiana. E a minha identidade brasileira reside aí: Só consigo escrever em português, meus gatos miam em português e agora aqui em casa só se fala português. 

Minha identidade está no Caetano cantando um baianês aberto no Spotify e no grito incontido com o gol da Marta ontem à noite (contra a Itália!hihihi)

Mas não me furtarei de fazer minhas mutações e permutas. A Ciência já me contou que é no remodelamento que a mágica acontece… seja ela qual for.

E meu amor me mostrou que é na com-posição que se constrói identidades. Ele vai no piano de Vivaldi. Eu vou na voz de Elis. Quem sabe não fazemos a nova bossa nova?

Queremos ter uns dez filhos: um em cada país. Um de cada jeito. Matteo Salvini não gosta. Mas Charles Darwin adora.

¹ Dissertação de mestrado ainda não foi defendida e publicada. Quando for a ocasião, citarei o nome da autora e título da dissertação para quem se interessar em aprofundar o tema. Aqui - se tratando de um blog informal - foi apenas extraída a minha releitura para embasar a crônica. O texto em questão é muitíssimo mais rico e teórico. Aguardem!


Darwin Political Cartoon from Pinterest




mercoledì 12 giugno 2019

15. A Vida na Hora

Hoje é um dia lindo… no instagram. É o dia dos Namorados, dia em que - no meu país natal - se celebra o amor. Os italianos ao meu redor não estão nem atinando para os valentinos, mas meu cuore brasiliano (e minhas redes sociais) me lembram que é dia de amar. Então gostaria de dedicar esse texto a todos que apostam e investem no amor. Sobretudo, gostaria de honrar aqueles que, como eu, foram e são corajosos (ou desequilibrados?) suficientes para amar à distância. Ou, ainda mais, a se mudar por amor.

O sujeito que larga a sua vida inteira - endereço, família, língua madre, sol, amigos, estabilidade, etc (a lista é infinita) - por um outro ser no mundo é... um maluco completo! Um histérico incurável! 

Quando penso que me despedi de avós no fim da vida, encaminhei quarenta pacientes em sofrimento e enfiei meus dois gatos (também em sofrimento) num avião para vir para um país que eu nem gosto tanto, eu tenho vontade de me internar. Ou de me automedicar. Ou mandar caçar o CRP da minha psicóloga… Talvez até dar uma bronca nos meus próprios pais. Quem permite a um ser humano tamanha imprudência?? Não importa que eu tenha 30 anos! Alguém teria que impedir esses atos levianos! Não?

Não. Ninguém impede. O amor tem um non so che cosa que enfeitiça as pessoas! Fica todo mundo doidão, achando tudo maravilhoso e apostável. Vira instagram.

As fotos de flores, jantares e promessas escondem os litígios, omitem os desencontros e travestem as insatisfações. 

Igualmente, a frase - pronunciada entre suspiros, talvez até inveja - “se mudou! Foi embora por amor” oculta toda a dureza da vida como ela é. 

Pensem comigo que o cidadão que “se muda por amor” é tão doido que ele topa pular etapas de um relacionamento que nenhuma criatura em sã consciência faria: O casal passa de um namoro virtual… para o casamento! Cinema de fim-de-semana? Não teve. Férias com a família neurótica? Not. A briga pela arrumação do quarto? Qual quarto? O do hotel? 

Dessa forma, o casalzinho recém-formado se encontra no vestibular da real life sem ter feito curso intensivo! É dirigir sem CFC! Ir para o palco sem ensaio! Competir sem treino! Puta sacanagem!

Mas como haveria de ser?
Alguém precisou se mudar. 
Morar separados? E quem paga o aluguel sozinho com o euro a 4,5?
E quem aguenta o desamparo da (in)adaptação junto à solidão?

Me faz pensar quase nos casamentos arranjados do passado. Ou os atualíssimos matrimônios entre os indianos, muçulmanos ou judeus. Um passo no escuro.

Para eles, uma Fé ferrenha na escolha divina, astrológica e dos genitores.
A nós, ocidentais, se restringe à Fé no amor. A aposta na escolha que, para nossa infelicidade, não foi papai que fez. Nem o do Céu e nem o da Terra. Nossa miséria neurótica não vai poder botar a culpa em ninguém. Nós escolhemos. Então vai lá pagar o preço da escolha…

É de uma coragem Humana! Mais que Divina! É o enfrentamento da vida-como-ela-é MAIS o catalisador da urgência e do não ensaio. É uma coisa absurda!

E as pessoas fazem. Nós fazemos. Eu fiz.

É uma prova de fogo que a foto do Coliseu esconde… mas que é muito mais bela e potente que o Coliseu. É um amor e um investimento colossal.

É uma construção muito mais minuciosa e atenta que os Arcos Romanos. São os nossos arcos e laços que, ao invés de se degradarem, prometem se assentar com o tempo.

É mais sagrado que a Capela Sistina, porque Michelangelo pode planejar… e nós rabiscamos de improviso.

É a coisa mais grandiosa que eu já fiz.

Obrigada aos meus pais, amigos e analista que não me internaram. Que abençoaram a união como um guru hindu e apostaram na nossa sorte. Mas, ainda mais, apostaram na nossa capacidade de restauração. 

Hoje não vai ter meu gringo bonito no Instagram. Vai ter a verdade ao mesmo tempo delicada e cortante de minha poetisa mais sensível e polaca (como meu sangue):

A vida na hora.

Cena sem ensaio.

Corpo sem medida.

Cabeça sem reflexão.

Não sei o papel que desempenho.

Só sei que é meu, impermutável.

De que trata a peça

devo adivinhar já em cena.

Despreparada para a honra de viver, mal posso manter o ritmo que a peça impõe.

Improviso embora me repugne a improvisação.

Tropeço a cada passo no desconhecimento das coisas.

Meu jeito de ser cheira a província.

Meus instintos são amadorismo.

O pavor do palco, me explicando, é tanto mais humilhante.

As circunstâncias atenuantes me parecem cruéis.

Não dá para retirar as palavras e os reflexos, inacabada a contagem das estrelas, o caráter como o casaco às pressas abotoado – eis os efeitos deploráveis desta urgência.

Se eu pudesse ao menos praticar uma quarta-feira antes

ou ao menos repetir uma quinta-feira outra vez!

Mas já se avizinha a sexta com um roteiro que não conheço.

Isso é justo – pergunto

(com a voz rouca

porque nem sequer me foi dado pigarrear nos bastidores).

É ilusório pensar que esta é só uma prova rápida

feita em acomodações provisórias. Não.

De pé em meio à cena vejo como é sólida.

Me impressiona a precisão de cada acessório.

O palco giratório já opera há muito tempo.

Acenderam-se até as mais longínquas nebulosas.

Ah, não tenho dúvida de que é uma estreia.

E o que quer que eu faça, vai se transformar para sempre naquilo que fiz. 


Extraído do livro Poemas, de Wislawa Szymborska, Companhia das Letras



Wislawa Szymborska, poetisa polonesa

mercoledì 29 maggio 2019

14. O Aedes e a coragem


Expatriado é foda. Se fosse só bom, não começava com “ex”...

É muito glamour comer mirtilo.;
Mega poético saber que meu rolê baixa renda é um cornetto ao pé do Coliseu;
Aprecio caminhadas noturnas sem risco de estupro;
E amo a qualidade de vida europeia. Amo.

Só que ser forasteiro tem lado B.
Fora-steiro não está por dentro. Fora-steiro é estranho. É FORA. É margem. É confim.
Com fim.

Fim da terra. Fim da linha. Limites, fronteiras, raia, divisa. 

O que te traz aqui? E o que te faz ficar?

Tenho amigos por toda a Europa e digo empiricamente que ela nos testa: O Velho Continente é um Deus brabo do tipo Velho Testamento: tentador, punitivo, castrador. Não vacila! Veremos se ele nos aceita ou nos bane para sempre do Paraíso...

Escolhi o pior país para equivaler meu diploma: estão querendo jogar meus 12 anos de estudos e 9 de prática no lixo, porque a lei soberana dos psicoterapeutas do Lazio acham que só na Bota se faz Psicologia… affanculo os saberes (que não é sinônimo de conhecimento) e a Psicanálise laica de Freud. Aliás, laicismo aqui tá difícil…

Vamos à lista de meus brasileiros corajosos espalhados e apanhando nesse mundão:

Minha amiga e colega de formação, especialista em neuro e hospitalar que mora na Áustria passou um sufoco para uma equivalência que a permitiu FINALMENTE ser… assistente de professora infantil! 
Oi? Vocês estão de sacanagem?
Nada contra a educação infantil! Aliás, estamos levantando bandeiras nesses tempos sombrios…. Mas vocês têm noção da qualificação dessa mulher para colocá-la como assistente?

Outra amiga no Reino Unido tomou um esculacho com tom pomposo e superior de um policial londrino por atrasar uma notificação de residência. Saiu chorando humilhada de lá…

Fui fotografada e fichada na imigração da Irlanda aos 18 anos por ser jovem, brasileira e viajar sozinha. Suspeita de prostituição ilegal. “Se você não sair daqui em um mês, nós vamos atrás de você e te mandamos de volta para o seu país!"

É o visto que não chega, a cidadania que não sai, o trabalho que não vem...

Apanhamos para pedir uma pomada de herpes na Alemanha. Apanhamos para entender qual o ônibus certo a tomar… 

Fincar-se na terra do outro é se obrigar a germinar em terra infecunda.
É repetir seu nome milhões de vezes. E um nome não é pouca coisa…
É competir com o nativo que - pode até ter um currículo menos interessante - mas, pelo menos o curso dele, o entrevistador sabe pronunciar…
É ter que provar para a Polícia Federal que seu amor é real e evidenciar que o casamento não é fachada…

Ser FORAsteiro é se bancar e se fazer valer DENTRO do ninho do outro. É de uma coragem absurda. Mas a gente dá conta.

Conversando sobre isso com minha melhor amiga (também expatriada) ela me citou a frase de seu namorado mineiro (e todo mineiro é adoravelmente engraçado! Então preparem-se!):

“Ingleses, vocês sabem da onde eu venho? No país de onde eu venho UM ÚNICO mosquito passa TRÊS DOENÇAS!”

Explodi de rir! 


É isso, cara Europa! Você acha que a ameaça nos detém? Que a dificuldade nos marginaliza? Oh dear, nós somos vacinados (literalmente). E se vier nos visitar, melhor se vacinar também...


O Aedes aegypti é a personificação da resiliência brasileira! A gente cria anticorpos. A gente se faz valer. Don’t mess with us.

Podem vir quentes que estamos fervendo.... 

E não é febre amarela! É de coragem!







sabato 11 maggio 2019

13. Lobas

Acabo de ver uma publicação no Instagram da Tati Bernardi: “É muita mãe pra pouco Freud” - ta aí uma verdade verdadeira. A Tatinha (gosto tanto dela que, para mim, somos íntimas!) devia estar pensando na mãe dela, mas tomo a liberdade de roubar a referência. Dá para teorizar sobre esse amor? Até o pai da psicanálise teve seus trancos e barrancos e cá estou eu ousando escrever sobre a maternagem. 

Aceito minha limitação acadêmica e me direciono apenas a ela: a minha mãe. Sobre ela tenho maestria. 

Moro na Itália. Antes disso, morei no Brasil. E antes ainda, morei em seu útero. Essa mulher virtuosa não me planejou, mas me amou desde o primeiro exame. Me quis menina mesmo acreditando que eu viria com pipi (talvez também por isso eu seja toda metida a fálica!). Me esperou com entusiasmo e um tanto de preocupações. Me encheu de amor, me forçou comida, cuidou com mãos de fada, gritou como uma louca… Me vestia como uma princesa, mas me fazia um cabelo horroroso de coqueiro. Me penteava com o carinho dos anjos, embora certa vez tenha cortado minha franja de modo tão torto que virei o Jim Carey em “Debi e Lóide”. Foi perfeitamente ambivalente como qualquer ser humano que se preze. Fez tudo o que pode por mim e meu irmão na juventude dos seus trinta anos… e como fez bem! A danada é ariana cor de carmim e sempre soube nos dar amor e limite na mesma intensidade de seu fogo materno. O abraço e a bronca vinham queimando num braseiro de afeto. Que bom, calor não nos faltou.

Às vezes - como qualquer ser humano que se preze - relata culpa. Mães são culpadas quase por definição. Vi isso na clínica, na Bíblia, nos parques, nos ventres… É como se o erro e a maternidade não pudessem caminhar lado a lado. Como se o poder divino de gerar vidas fosse inconciliável com a errância humana. Quem inventou isso?

Gosto da concepção francesa “Il n’y a pas de mère parfaite”*. Com essa simples frase, as mães parisienses vão consolando umas às outras e dizendo a si mesmas que está tudo bem falhar. Não sei quem escanquestou que parir anulava a nossa condição de seres castrados. Aliás, eu sei. Fomos nós neuroticamente.

A Deusa sabe o que faz. (No dia das mães, nada mais justo que reverenciar a faceta feminina da divindade, não?)

Pois vos digo mais: as Deusas topam os crimes! Quem não topamos somos nós. No Antigo Egito (e até hoje por todas as partes do mundo greco-romano) se honra Ísis, a maravilhosa Deusa da maternidade e de fertilidade. Amo! Ísis era considerada um exemplo de mãe e esposa, era amiga de todo mundo, protegia até os inimigos e ajudava a galera do sub-mundo. Em contrapartida, copulou com o próprio irmão e lhe deu um herdeiro para vingar a sua morte. Fala se não era uma fanfarrona? Acho fantástico. Decidi bordá-la para homenagear minha mãe e toda a humanidade inerente às mães imperfeitas...e ainda assim sublimes. Como Ísis.




Calm down! Isso não é uma apologia ao incesto! Continuo sendo psicanalista e considero muito desejável que nossa cultura continue obedecendo uma Lei (que, em nossa civilização, se apoia no Tabu do Incesto) e acho ótimo. Furar isso seria perversão e estaríamos fadados aos caos. O ponto é que pecado e vingança são aspectos essencialmente humanos e Ísis, ainda que divina, comporta toda a nossa transgressão sem perder a paz. Por que então nossas mães terráqueas deveriam perdê-la?

Caminhemos em direção ao ocidente. A fundação de Roma, segundo a lenda mitológica, tem como participantes os irmãos gêmeos Rômulo e Remo que, após terem sido abandonados no rio Tibre, foram salvos por uma loba que os amamentou, mantendo-os vivos. Há alguns registros que defendem que a supracitada loba foi, na história real, sua mãe adotiva humana, já que o termo loba (em latim lupa) também era utilizado em sentido pejorativo para as prostitutas da época. 



Ou seja, a mãe poderosíssima e co-responsável pela fundação do maior império de todos os tempos teria sido ao mesmo tempo: animal, humana, mãe e puta. E vocês aí com complexo de culpa! Preocupadinhas com perfeição...

Esse texto é para todas as mães com seus úteros divinos e mãos pecaminosas. Para toda a dualidade maravilhosamente humana que há em nós mulheres. E é sobretudo para a minha mãe...

Minha fada, morar longe de você é sentir saudade frequente dos nossos erros e acertos. É te amar por tudo que você foi, é e continua sendo. Obrigada pelo acolhimento do útero e obrigada mil vezes mais pela expulsão do nascimento. Sem teu ventre abençoado eu não teria adquirido a força para explorar o mundo. Il n’y a pas de mère parfaite. Mas tem você, que é perfeita… mesmo sendo ariana! 

Buona festa della mamma!

*Il n'y a pas de mère parfaite: Não existe mãe perfeita